Palavras de Pagu
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de junho de 2005
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
O jornalista Geraldo Galvão Ferraz sabia o valor da preciosidade que tinha na pasta preta recebida do pai, nos anos 1970. Ali, além de documentos e fotografias, estava uma carta, em páginas datilografadas, escrita pela sua mãe, Patrícia Galvão, a Pagu. Era uma longa carta autobiográfica, escrita em 1940 como parte da relação que os pais mantinham, de entrega total, sem qualquer concessão. Ferraz lembra que não foi fácil ler o documento ao longo de décadas, ele tentou mas não passava de algumas páginas, brecado pela emoção.
Até finalmente conseguir conter os sentimentos, Ferraz descobriu uma pequena jóia: em seu texto, Pagu fazia observações argutas sobre sua vida e sobre as pessoas com quem convivera. ''Descobri que não era simplesmente uma carta, mas um texto literariamente significante'', conta Ferraz, que decidiu editá-la sob o título ''Paixão Pagu - A Autobiografia Precoce de Patrícia Galvão', lançado pela editora Agir, em edição ilustrada.
Segundo o jornalista, o conceito que se tem hoje de Pagu, antes deste livro, foi criada pelo Estado Novo getulista, que satanizou sua figura, vendendo a imagem de uma mulher louca, disposta a matar as pessoas. Na leitura de ''Paixão Pagu', no entanto, destaca-se a figura de uma mulher de 30 anos incrivelmente consciente em relação às pessoas que a cercavam.
Sobre o escritor Oswald de Andrade, por exemplo, com quem teve o filho Rudá: no texto, Pagu conta que nunca foi amada pelo autor de ''Memórias Sentimentais de João Miramar': ''Oswald não se interessava por mulher, mas por deslumbrar mulheres. Isso tudo lhe dava, a meus olhos, uma faceta infantil, que chegava a provocar minha complacência e muitas vezes até minha ternura''.
Pagu também revela seu desilusão com o comunismo, mesmo tendo se tornado operária para aprender a resistir a tentações pequeno-burguesas. A exceção era Luiz Carlos Prestes: ''Vi o comunista convicto das suas argumentações com a força da certeza e, principalmente, coerente com a luta a que se entrega''. Ela também faz confidências nada simpáticas a figuras como o escritor argentino Jorge Luis Borges que, fascinado por sua beleza, quis se despir no quarto dela cinco minutos depois de a conhecer, em 1930.
Além dessa autobiografia precoce, o trabalho de revisão da imagem de Pagu inclui ainda a recuperação de seus textos jornalísticos em colaboração com o professor David Jackson, da Universidade Yale, Ferraz organiza os quatro volumes que vão abrigar esse material. ''Com isso, vamos resgatar seu trabalho como escritora'', comenta Ferraz.
Serviço
- Livro ''Paixão Pagu - A Autobiografia Precoce de Patrícia Galvão'', de Geraldo Galvão Ferraz. Editora Agir. 132 páginas.


