PALAVRAS DE BRESSANE
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de fevereiro de 2001
Nelson Sato De Londrina 
É quase espantoso ver um cineasta brasileiro expor suas idéias em textos e não apenas em entrevistas. Não deveria ser assim. Afinal, já houve época em que a criação e a reflexão caminhavam juntas, a ponto de um artista como Glauber Rocha ter registrado seu pensamento em incontáveis artigos na imprensa e em livros fundamentais.
Só por isso, chama atenção a publicação de Cinemancia (Imago), livro de ensaios de Júlio Bressane. O volume, o segundo dele, reúne textos sobre cinema, literatura e filosofia. Os escritos são curtos, um deles de apenas meia página. Por um deslize da edição, não há qualquer informação sobre o ineditismo ou não do material.
Representante local de um certo cinema de vanguarda, hoje em baixa, Bressane divaga aqui a respeito de algumas referências que nutriram sua obra ao longo dos últimos trinta anos. No texto de abertura, Fotodrama: Grão de Luz no Deserto, aborda a figura de São Jerônimo. O santo do século 4 é retratado em pinceladas, do ascetismo de sua vida no deserto à sua tradução latina da Bíblia que resultou na versão conhecida como Vulgata.
O pano de fundo, a tela, da vida de Jerônimo é a queda do Império Romano escreve Bressane. É o fim de um mundo. Jerônimo encarna o momento em que impunha o saque ao melhor do mundo que se cerrava. Esta a questão. Criar a fala nova em uma língua transformada. Criar uma nova mentalidade. Transformar, adaptar, contrabandear algumas gemas do passado greco-latino para o novo mundo cristão inevitável e emergente.
Mais adiante, anota: O gabinete de estudos ou a furna do deserto, com livro, caveira, pedra, pena e leão, é o habitat deste monge estudioso, sempre a meditar e a escrever. O homem estudioso em seu ambiente recluso, no deserto, em martírio criando beleza, mastigando, como diz o santo, as sementes amargas que produzem os frutos doces.
São Jerônimo, tema de um dos filmes recentes do diretor, retorna em outros textos do livro como personagem-chave de especulações a respeito da estética da luz e das metáforas inspiradas pelo deserto. O segundo escrito do volume é dedicado ao cineasta Robert Besson, aquele que nas palavras do autor devolve o cinema ao cinema.
Aqui, Bressane exalta as virtudes do homenageado reproduzindo em seguida uma série de aforismos extraídos do documentário Bresson, ni vu, ni connu, além de transcrever uma longa entrevista do artista francês sem citar a fonte. Numa passagem do texto, ele lembra que o cineasta foi pioneiro na experimentação da operação tradutória intersemiótica, do texto para o filme.
O assunto, a tradução, é recorrente no livro. Tradução em cinema faz-se com luz-movimento-angulação-montagem salienta no ensaio Brás Cubas, cujas linhas teóricas iniciais desembocam na descrição de sua própria adaptação para as telas da obra máxima de Machado de Assis. Em Hi Fi, ele tateia correspondências entre o curta-metragem homônimo de Ivan Cardoso com a poesia de Augusto de Campos e o cinema do dadaísta Man Ray.
Completam o livro textos sobre o poeta-pensador norte-americano Emerson, as inscrições rupestres no Brasil e as influências do escritor inglês Sir Thomas Browne na obra do argentino Jorge Luis Borges tudo entremeado por associações e inquietações teóricas idiossincráticas. Apesar de modestas 100 páginas, o volume contém elementos para uma melhor compreensão dos signos que habitam a cinematografia nada digerível do autor.


