Palavras de amor
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de junho de 1997
Iara Lessa Londrina 
ReproduçãoO que pode haver de semelhante entre o poeta francês Arthur Rimbaud, um homossexual que escandalizou a França no final do século passado mais por causa de seus hábitos de que seus versos, e o escritor brasileiro Nelson Rodrigues, figura reacionária que, entre outras obras do cotidiano carioca, escreveu Toda Nudez Será Castigada? Pois bem, ambos, tão diferentes em seus estilos e vidas, tinham um passatempo quase secreto. Os dois escritores, cada qual em sua época, produziram divertidas e românticas cartas de amor.
Rodrigues, machão absoluto da praia de Copacabana, amava a doce Elisa, sua esposa, à qual dedicou laudas e mais laudas onde a chamava de maravilhoso remédio, divino amor, docinho de minha vida, entre outras pérolas comuns nessas estranhas cartas.
Menos light no tratamento de seu amado, Rimbaud lavou muita roupa suja por escrito durante seu tumultuado caso de amor com o também poeta Paul Verlaine. Depois de dois anos de relação, nas cartas de ambos pipocavam expressões como você me enche o saco e a vida ao seu lado é uma b.... Mas essas missivas invariavelmente terminavam com um singelo amor, R. ou para sempre. P.. Vai saber, coisas do coração.
Aliás, quem está com a razão a respeito das cartas de amor é mesmo o poeta português Fernando Pessoa, quando se reveste na pele do heterônimo Álvaro de Campos. O português escreve que todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. As cartas de amor, se há amor, têm que ser ridículas. Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas.
Muitos escritores famosos, no entanto, sentiam-se vazios diante da folha em branco. A explicação é simples. Grandes obras literárias trabalham com temas, sensações e sentimentos muitas vezes adequados à história. Nas cartas de amor, a essência é mesmo a sinceridade. É a hora da verdade para o amor.
Eróticas Entre os poetas que se sentiam intimidados diante da lauda em branco está ninguém menos que o grande Marcel Proust. Proust, que preferia escrever suas cartas românticas em dias frios, começa com muita frequência as missivas para sua amada Louise de Mornand dizendo que não sabia se iria conseguir dizer quanto amava sua musa. Modéstia, não é mesmo? Quem também fazia a linha difícil com as palavras melosas era o escritor tcheco Franz Kafka. O autor de A Metamorfose chegou a sugerir para sua companheira, Felice Baurer, que toda a correspondência amorosa entre eles fosse suspensa por causa de sua inabilidade com as letras.
Mas talvez o caso mais espetacular de correspondência amorosa seja do escritor e poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Drummond era fissurado em cartas pessoais. Em seu espólio foram encontradas mais de três mil cartas. Sua filha Maria Julieta recebia pelo menos um bilhete por dia. Sua mulher Dolores recebia sempre cartas intimistas, escuras, mostrando o lado menos doce do poeta. Mas foi durante seu caso de amor com Lygia Fernandes, que manteve em absoluto segredo durante 36 anos, que o poeta liberou geral. Suas cartas, que são mantidas a sete chaves, tinham um explosivo potencial sensual. Quem garante é a amiga do escritor, Raquel de Queiroz, que declarou recentemente que as cartas são nitroglicerina pura!.
Na linha erótica, no entanto, James Joyce, o irlandês que virou do avesso as palavras em Ulysses, era imbatível. Suas cartas para Nora Bernacle transpiravam paixão e luxúria. Joyce escreve em setembro de 1909 a seguinte carta: Minha querida Nora, neste momento estou me rindo em pensar nos seus peitinhos de menina. Como és marota! Foi para parecer uma menina que cortaste o cabelo entre as pernas? Fico louco pensando em você usando roupas de baixo preta. Nora jamais respondeu uma única carta de seu grande amor.


