Bem-humorado e sem doses aparentes de vaidade, aos 64 anos, Antonio Fagundes exalta sua independência artística como um dos maiores trunfos de sua trajetória. Muito disso é porque, segundo ele, o trabalho na tevê sempre respeitou sua paixão pelo teatro, adequando-se à sua disponibilidade e desejos artísticos.
Entre erros e acertos, Fagundes diz só fazer o que quer. Por isso, fica visível a empolgação do ator com César, seu personagem em "Amor à Vida". "Pela experiência revigorante que foi 'Gabriela', não tive como recusar o convite do (autor) Walcyr Carrasco e do (diretor) Mauro Mendonça Filho. A força dos personagens dessa nova novela é impressionante. Eu até poderia dizer 'não', mas topei", justifica, relembrando seu desempenho no remake da história de Jorge Amado, exibido até o final do ano passado.
Envolvido com os bastidores de "Amor à Vida" desde março, Fagundes, que é natural do Rio de Janeiro, acredita que boa parte do charme do folhetim é devido ao registro apaixonado com que São Paulo, cidade que acolheu sua família quando ele ainda era um garoto, é retratada. "Sempre mostram a Marginal, o trânsito e acabou. São Paulo é uma cidade muito viva e cheia de possibilidades. Acho que será a primeira novela a mostrar a cidade com paciência", destaca.
A íntima história de Fagundes com a cidade confunde-se com as memórias do início de sua vida como ator e da carreira na tevê, quando nos primeiros anos da década de 1970, na extinta TV Tupi, participou de tramas como "Mulheres de Areia" e "A Revolta dos Anjos". Já com ares de galã, Fagundes estreou na Globo em "Saramandaia", de 1976, e, ao longo do anos, tornou-se um dos principais nomes da casa, protagonista de tramas importantes como "O Dono do Mundo", "Renascer", "O Rei do Gado". "Fiz muitos personagens marcantes na tevê, mas gostaria de ter sido lembrado para tipos menos convencionais. Ainda dá tempo! Tenho muitos papéis para viver", ressalta, aos risos.

Apenas cinco meses separam o final de "Gabriela" e o início das gravações de "Amor à Vida". Você esperava voltar ao ar em tão pouco tempo?
Definitivamente, não (risos). Eu acho importante dar uma pausa entre um trabalho e outro. Não tenho esse pensamento de que é preciso um tempo para um personagem sair e outro ir chegando. Para mim, um período maior entre as novelas serve mais para descansar e cuidar da minha vida. Mas, dessa vez, nem deu tempo de fazer muita coisa, voltei aos estúdios mais rápido do que eu pensava.

E o que o fez aceitar o convite para a novela?
"Gabriela" foi um trabalho muito gostoso e que me deu muitas alegrias. Tenho feito bons personagens, mas com o Coronel Ramiro eu pude experimentar uma composição mais elaborada e isso me deixou bem satisfeito. A tevê não me dá a oportunidade de fazer personagens como aquele. Assim como "Gabriela", "Amor à Vida" é uma novela do Walcyr (Carrasco), dirigida pelo Mauro Mendonça Filho. Portanto, topei participar da trama pela oportunidade de voltar a trabalhar com eles e com boa parte da equipe da novela anterior. Achei que era um trabalho que pintava ser muito gostoso e está sendo.

De acordo com a sinopse, seu personagem fica em "Amor à Vida" até o capítulo 80. Isso também foi estimulante na hora de acertar sua participação?
Não escolho o que vou fazer na tevê pelo número de capítulos que tenho de trabalhar. Meu objetivo é fazer algo que me empolgue artisticamente. Mas é claro que projetos curtos são mais agradáveis. Gravar novela, apesar de prazeroso, é muito cansativo. É interessante essa redução no número de capítulos que algumas tramas estão promovendo. Acho que os folhetins precisam durar o necessário para contar a história e pronto.

Mas assim como em outros trabalhos, você continua gravando apenas de segunda a quarta. Isso é uma exigência sua para fazer novelas?
Não chega a ser uma exigência (risos). Na verdade, quando a Globo me chamou pela primeira vez para trabalhar, há 37 anos, eu estava completamente envolvido com teatro. Sou apaixonado pelos palcos e sempre estou com alguma peça em cartaz, inclusive, agora. Portanto, a única forma de eu conciliar essa minha prioridade com os chamados para a tevê era gravar nos dias de folga do teatro.

Mesmo com essa limitação, seu nome é solicitado por muitas produções. Isso fica evidente ao ver que, desde os anos 1990, você mantém uma média regular de um trabalho por ano. O que o instiga a continuar fazendo televisão?
Me sinto mais vivo do que nunca. E acredito que nunca me sentir plenamente realizado na profissão é o segredo. Sempre quero fazer uma coisinha a mais, buscar outros tipos e possibilidades. E isso é que é bonito. O momento que eu me sentir realizado, acabou. Acho que o gostoso é você estar sempre perseguindo alguma coisa, mesmo que você não saiba exatamente o quê (risos).

Atualmente, personagens importantes de sua carreira estão sendo reprisados no canal por assinatura Viva, o Pedro, da série "Carga Pesada", o Caio, de "Rainha da Sucata", e o José Inocêncio, de "Renascer". Você costuma acompanhar suas cenas em trabalhos antigos?
Caramba! Só dá eu por lá. Será que o público não enjoa, não? (risos). Infelizmente, consigo ver muito pouco dessas minhas atuações. De vez em quando, em horários mais alternativos, assisto a algumas cenas desses trabalhos. Até gostaria de ver mais, pois essa série é muito importante para mim e essas novelas são muito boas. "Rainha da Sucata" e "Renascer" foram dois marcos na minha carreira.

Por quê?
Em "Rainha da Sucata", me deram, enfim, a chance de fazer comédia. Eu fiz muitas coisas cômicas no cinema e no teatro e eu vivo pedindo para os autores que escrevem comédia me chamarem, mas parece que eles não gostam. Formei um trio maravilhoso com a Claudia Raia e a Marisa Orth e a repercussão foi muito boa. Já no caso de "Renascer", foi o início do meu trabalho em novelas do Benedito Ruy Barbosa, um autor que eu respeito muito e que me deu grandes cenas. São novelas exibidas há mais de 20 anos e é bem estranho me ver.

Como assim?
A sensação que eu tenho é que depois que passa um tempinho não é mais você. É um cara lá. Você já envelheceu, mudou, engordou. Parece que não sou eu.

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