Palavra de frentista
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 31 de março de 1997
Antônio Mariano Júnior 
Marcos BorgesJosé Aparecido Lucas: Ser escritor é como ser feliz: não precisa de escolaJosé Aparecido Lucas é frentista de um posto de gasolina em Londrina. Está nessa há quatro anos, depois de já ter trabalhado como pedreiro, caminhoeiro e feirante, entre outros ofícios. Mas o que difere Lucas dos demais frentistas da cidade é o fato de ele ter uma qualidade a mais: é escritor. Quer dizer, ele está tentando se firmar na nova carreira iniciada oficialmente através do livreto O Bichinho da Solidão, lançado no final do ano passado.
O livreto é composto de palavras simples, clichês e lugares comuns. Aparentemente, sem muito peso literário. Porém, é preciso lê-lo com a alma desamarda já que quem o escreveu é um sujeito sensível que, num simples bate-papo, é capaz de destilar frases preciosas e emocionadas. Ser escritor é como ser feliz: não precisa de escola- diz ele, referindo-se ao seu grau de escolaridade estacionado no quarto ano primário. Para ser escritor basta soltar o que está na mente e no coração. E contar com a forcinha de Jesus que é quem dá o dom, o talento.
O peso das palavras escritas por Lucas advém da verdade de uma infância e adolescência não muito risonhas. Uma casa na favela, como conta, foi sua primeira moradia tão logo chegou a Londrina com a família, há 25 anos. O pai, sabe-se lá por quais motivos, optou pela vida de mendigo. Há seis anos não dá notícias. Além disso, ele foi criado por algumas famílias. Sou revoltado de berço e isso formou palavras dentro de mim. Comecei a escrever para desabafar. Muitas vezes saem coisas boas- conta.
Hoje, aos 33 anos de idade, Lucas se delicia com as palavras. Mas foram precisos muitos anos para que elas dessem o ar da graça no papel. Mais exatamente há dois anos, quando ele escreveu alguma coisa para consolar uma ex-patroa cujo automóvel havia sido furtado. Lucas não se lembra do conteúdo. Só sabe que, a partir de então, não parou mais de escrever.
Amar no silêncioA primeira incursão na literatura aconteceu em novembro do ano passado quando, com a ajuda de alguns amigos (entre eles o dono do Posto Rio II, onde trabalha), publicou o Bichinho da Solidão. O livreto, com quatro páginas, saiu com uma tiragem de 500 exemplares, dos quais 350 distribuídos aos clientes do posto em que trabalha.
Trata-se, na verdade, de uma crônica recheada de conselhos. A solidão é como você amar uma pessoa no silêncio- escreveu Lucas em determinado trecho. Já a prova máxima de simplicidade e humildade está estampanda no final do livreto : Obrigado por ter lido o que eu escrevi.
O livreto saiu e Lucas ficou orgulhoso da vida. Tornou-se um escritor, como ele mesmo faz questão de frisar. Mas um escritor que reconhece não gostar muito de ler e que, às vezes, pensa em retomar os estudos. Eu sei que é chato falar isso, mas eu gosto de ler um pouquinho. Leio gibis e romances que falam de amor e paixão- informa.
De falta de inspiração ele garante não sofrer. Ou seja, bateu, escreveu. Para tanto, sempre tem por perto algumas folhas de papel para colocar pra fora o que está sentindo. E foi numa dessas saraivadas de inspiração que Lucas escreveu O Grande Lixo, depois que uma ex-colega de trabalho disse à boca pequena com alguém: Por que o Lucas anda tão sujo?.
Ele conta: Fiquei invocado com aquilo porque eu não sou sujo; às vezes me sujo por causa do trabalho. Logo no início da crônica, o frentista-escritor tascou: O grande lixo é aquela pessoa que não vê você com amor. Na lata. Mas Lucas tem pelo menos outros dois trabalhos já engatilhados que ele pretende transformar em livreto. Para isso, é preciso de patrocínio. E não é muita coisa não. Os interessados podem entrar em contato pelos telefones (043) 322-4733 e 329-4530.


