Vivo entre três cidades, na estrada, nas avenidas paralelas, no sumidouro das identidades. As ruas têm a solidão dos anônimos e os postes de lâmpadas queimadas ocultam rostos e revelam passos. Nas ruas há uma pressa insana, um arrastar de sandálias, ruído de salto, medo de assalto, rotina fiel e entorpecida. Há paisagens sublimes de espelhos d'água, flores que nascem e morrem. Há prédios cinzentos, esquinas carcomidas, pães amanhecidos nos bancos, praças onde o sol acorda depois da chuva insistente, que as bocas de lobo engolem e vomitam. As metrópoles sofrem de um excesso de civilização.
Sou estrangeira nestas três cidades, entro e saio das suas portas imaginárias sem deixar quase nada de mim. Levo ocorrências numa pequena mala, mas os endereços mudam e confundo nomes de praças, costuro ruas inconciliáveis, me perco e me encontro, transitando num caos digno de um cartão-postal do século 21.
Há cidades grandes e pequenas, populações que se equivalem, etnias diversas, gostos variados, canções que saem dos carros, silêncios que nos pegam no colo, à noite, quando ouço cantigas de ninar, depois que se desligam as TVs e os computadores dormem, como máquinas que se humanizaram. Só não se humanizam as cidades, quanto mais crescem, mais entram em choque, mais evidenciam conflitos, há contradições de classes e a expressão dos aflitos na Igreja de São Judas Tadeu que tudo pode, rogo por ele em nome dos ciclistas.
Às vezes, os céus são de chumbo. Às vezes brilham sóis em paisagens de aquarelas metropolitanas. As cidades crescem e encolhem. Serpenteiam em avenidas largas e de mão dupla, restringem-se a becos, são macro e microcosmos de populações que pulsam na taquicardia urbana.
Sempre que posso, rezo pelas cidades, onde transitam pessoas à procura de emprego, desfiando expectativas simples - casa, comida, escola - ou acumulando bens de consumo - condomínios e carros - enquanto um andarilho ganha um real e um conselho: ''Não vá gastar em bebida!'' E retruca: ''Pode deixar madame, vou comprar um apartamento.'' As cidades têm um humor concreto que me provoca o riso.
O trânsito existe para confundir, os prédios dão a impressão soberba de vida no alto, mas há esgotos e pias entupidas, consciências perturbadas, ansiedade explícita, angústia em liquidação, o frisson de viver o impossível para a natureza de quem já foi selvagem. Tenho pena dos homens limitados a quarteirões, das crianças em apartamentos, das mães que acreditam em playgrounds, diversão pequenininha como as casas de 50 metros quadrados que têm as lajes como ''mirantes''. Tudo se reduz nos bairros, como um concerto minimalista tocado por uma grande orquestra. Sobra o cheiro do café nas manhãs das lanchonetes, onde se vendem pão com manteiga pela eternidade. Há sempre um gosto de cidade nestas xícaras, além de um sonho amanhecido e irrecuperável.

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