PALAVRA - Uma leitora volúvel
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de março de 2011
Célia Musilli 
Leio vários livros ao mesmo tempo, a não ser quando um me interessa tanto que faço dele uma companhia exclusiva. Mas, normalmente, gosto de variar e ao lado da minha cama há uma pilha deles. Alguns devoro, outros leio preguiçosamente, alguns estão condenados a não serem lidos até o fim. Não alimento o hábito da leitura forçada. Para mim tem que ser exercício de puro prazer. Já bastaram na universidade alguns textos chatos que engoli com pizza e guaraná, gostando muito mais da pizza.
Dia destes, reencontrei um livro delicioso. ''Contos Latino Americanos Eternos'' (Editora Bom tempo), com textos organizados e traduzidos por Alicia Ramal. Na lista de autores só os muito bons: os argentinos Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges; o cubano Alejo Carpentier (do qual não lia algo há muito tempo); o colombiano Gabriel García Márquez; os peruanos César Vallejo e Mario Vargas Llosa; os uruguaios Juan Carlos Onetti e Mario Benedetti; o nicaraguense Rubén Darío e os brasileiríssimos Mário de Andrade, Rubem Fonseca e Machado de Assis, orgulho da raça, entre outros.
Reli o conto ''Missa do Galo'', de Machado de Assis. Sempre tão bom, sempre tão preciso, um texto superior dentro da língua portuguesa. Sem excessos, de uma elegância suprema e frases certeiras que envenenam minha alma. Machado tem muita profundidade na criação das personagens femininas. Às vezes penso que o fato de ter perdido a mãe muito cedo alimentou sua acuidade em relação às mulheres, seus hábitos, seus gestos, suas expressões mais sutis. Mas os personagens masculinos também são perfeitamente descritos. Então esqueço o 'psicologismo' e me atenho à literatura, perfeita como uma renda de bilro. A descrição dos personagens e suas atitudes fazem com que se incorporem à minha frente:
''Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha gestos demorados e as atitudes tranquilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular.''
Onde o velho Machado foi arranjar a expressão 'desalinho honesto' para sua Conceição em ''Missa do Galo''? Um conto de sutilezas que deixa muitas perguntas, o retrato de um momento entre duas pessoas, íntimas no acaso de uma noite de Natal e que depois se afastam. Quantas vezes não esbarramos em pessoas íntimas por um instante?
A vida seria bem mais calorosa se pudéssemos estreitar contatos. Mas o que Machado me mostra é que há também uma graça nas circunstâncias que não duram. Precisamos aprender a contemplar e a guardar o efêmero. A literatura me mostra isso, a cada vez que termino ou não termino um livro.


