PALAVRA - Um retrato do risco
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de março de 2011
Célia Musilli 
Fui assistir a ''Bruna Surfistinha'', filme que conta a história da garota de programa mais famosa do Brasil, espécie de ícone da prostituição jovem, e encontrei uma platéia absolutamente heterogênea, homens e mulheres de todas as idades e classes sociais, concentrados no filme que nos coloca no limite da diversão e dos conflitos.
Já tinha visto a verdadeira Bruna em entrevistas e agora visitei seu blog, onde encontrei uma pessoa que parece satisfeita com os resultados de toda publicidade em torno de seu nome.
A garota que começou a se prostituir por completo desencanto com a família e com os colegas da escola continua sonhando alto, é o tipo de pessoa para quem os fins importam mais que os meios. Sua história é a de uma garota disposta a pagar um preço alto por uma espécie de autonomia falsificada. Sim, não há como a gente se enganar sobre a 'liberdade' proporcionada pela prostituição. Os ganhos financeiros de Bruna, como os de qualquer garota nesta situação, são divididos com a dona do negócio, a cafetina que sempre fica com a maior parte do dinheiro obtido pelas 'meninas'. A proposta no filme é fria - é pegar ou largar - e imediatamente aceita por Bruna, que resolve sair de casa, ainda que tenha que se envolver num negócio sujo.
Para meu alívio, o filme não glamouriza a 'profissão mais velha do mundo'. Antes, mostra um mundo sacana, onde as mulheres são obrigadas a aceitar situações sórdidas com homens de todo tipo: do inseguro ao garanhão que quer provar uma boa performance. Não tinha qualquer pretensão de ver o filme com moralismo e me deparei com um tratamento mais cru do que imaginava à vida das mulheres que se vendem em programas que variam de preço, conforme o sucesso ou fracasso de suas ofertas sexuais. Sob este ponto de vista, o filme é realista.
Os programas de Bruna chegam a custar R$ 300,00, baixando depois a R$ 20,00 em fase de decadência. Tão vertiginosa quanto sua queda no mercado é seu mergulho no mundo das drogas. Na verdade, as decadências se equivalem e ninguém sai do cinema achando que prostituição é um negócio bacana e tampouco que cocaína é um 'barato'.
O filme foi feito para vender uma imagem - que não chega a ser retocada - e deve ser visto como uma amostra da realidade de milhares de jovens brasileiras. A prostituição de universitárias é fato.
Para mim, prostituição não é apenas uma questão de necessidade, como às vezes querem provar os estudiosos do assunto, há traços de escolha íntima em muitos casos. Já ouvi garotas de programa justificando sua escolha como um modo de 'ganhar numa noite o que ganhariam num mês em balcões de loja'. Então, a decisão de se prostituir não tem a ver só com necessidades básicas, como comida. Tem a ver também com um atraente consumo de coisas nem tão básicas: como roupas da moda e a possibilidade de frequentar lugares caros.
Há muito tempo, a sociedade que criamos dá mais valor às embalagens do que aos conteúdos, então não adianta culpar as 'meninas'. Qualquer mocinha deseja o que as vitrines expõem como 'signos da felicidade'. Some-se a este desejo intenso de comprar a frustração de uma vidinha problemática sob algum aspecto e temos aí o 'caldo' para a formação de jovens que se vendem por um paninho a mais no guarda-roupa. Bruna saiu da prostituição para viver com um de seus ex-clientes, nem todas as garotas de programa têm a mesma sorte. Nisso, o filme parece 'consertar' a rota de uma escolha mal feita, o que não significa que todas as jovens que se prostituem tenham um final feliz. A sociedade que consome o 'pecado', dele também escarnece.
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