O dia, além das auroras, nos traz poentes, nuvens, asperezas. Mas é possível polir a vida, contornar suas dificuldades como um barqueiro que refaz as rotas e passa longe da Ilha das Desilusões Por Causa de Nós e dos Outros. Para refazer a rota é preciso um pouco de disposição, uma esperança que permanece verde mesmo quando estamos maduros, uma ingenuidade de criança que descobre o mundo sem se privar até mesmo dos perigos e uma dose - sim, isso sim - uma dose excessiva de perdão.
  Então, comece perdoando os seus defeitos e os dos outros. Estabeleça um dia para dissolver as mesquinharias, suportar os nãos, seguir tranquilo, ainda que as flechas disparem e haja feridas. Esqueça frases imperfeitas, aquelas em que faltaram um ‘obrigado’, aquelas em que sobraram palavras ríspidas e esqueça, sobretudo, as discussões que te fizeram perder a cabeça. Todos nós em dias de combate sacrificamos nosso lado mais terno, nossa temperança, e soltamos as bestas do Apocalipse individual, colocando em xeque os anjos e possuindo demônios.
  Não se esqueça que há pessoas que adoçam nossas vidas, enquanto outras...azedam. As depositárias da doçura são aquelas que quase sempre vêm para dizer que nem tudo está perdido, que há poesia num dia difícil, que o sol não deixa de aparecer apesar de sua raiva e descrença na luminosidade. As pessoas doces quase sempre são desprovidas de interesses e bens de caráter efêmero, não fazem cobranças, além daquelas que mantêm o fio da dignidade estabelecendo limites. As pessoas doces são aquelas que não nos recusam um sorriso, nem ajuda, que pode ser uma coisa pequenininha como carregar os pacotes do supermercado ou livrar você de um almoço burocrático te levando para as varandas onde, geralmente, estão as pessoas mais interessantes, aquelas que dispensam holofotes.
  As pessoas doces decerto vão te convidar para viagens ou um simples passeio. Vão contar coisas da infância, evocar sentidos que se perderam, as falas das bonecas, a velocidade de um brinquedo quando queríamos experimentar a liberdade, muito antes das gravatas, das agendas, dos compromissos inadiáveis que nos tornam mais velhos e infelizes. As pessoas doces vão trazer à sua vida um pouco de música, quem sabe dança, uma composição de cirandas ou gestos delicados como quem puxa a cadeira para você se sentar, te oferece um refresco, toma sua mão no cinema, te namora descaradamente mesmo quando sabe que você tem todos os motivos para duvidar do amor.
  As pessoas doces vão usar a língua para palavras gentis e o corpo para ensinar a leveza de caminhar pelo mundo descobrindo caminhos simples, coisas que não custam nada, como espreguiçar-se e massagear os próprios pés para começar ou terminar o dia.
  As pessoas doces em algum momento vão te dar uma flor, uma estrela, um olhar de cumplicidade. Vão querer celebrar datas mesmo fora do calendário, cantar um ‘parabéns a você’ só para te ver alegre, te ensinar a escrever cartas em tempos tecnológicos e enviar bilhetes perfumados. As pessoas doces vão habitar suas manhãs com a promessa de uma atitude pura, mesmo em face da malícia da competitividade. Vão querer nadar, andar de bicicleta, colecionar pedrinhas, te dar presentes singelos como souvenirs ou coisas que cabem em caixinhas.
  As pessoas doces podem chegar nesta manhã com cara de Cristo renascido, anunciando a redenção do mundo ali mesmo em seu quarto, enquanto ensinam o máximo da doçura te desejando Feliz Páscoa e te oferecendo ovos de chocolate. Aproveite para derreter-se, sem os impedimentos da amargura.

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