PALAVRA - 'O bairro acabou'
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de janeiro de 2011
Célia Musilli 
Sou de um tempo em que o ''fim do mundo'' era uma imagem para assustar criança e, mesmo criança, a gente sabia que havia uma dose de exagero em expressões que ligavam ao fim este planeta sólido, estável, ensolarado e com paisagens alternadas a cada estação.
No início da semana, lembrei-me do fim do mundo quando vi na TV um morador de
Teresópolis declarar com tristeza: ''o bairro acabou''. A declaração não foi
feita para assustar crianças, mas deixou famílias sem fala nas salas do país
inteiro onde assistimos, sem patrocínios, à tragédia de mais um verão
brasileiro.
Não, não quero repetir aqui o que disse em 2009 sobre o que ocorreu em Santa
Catarina, nem recordar as calamidades de Angra dos Reis no réveillon de 2010.
Mas não posso me comportar como turista desavisada e ignorar o estado de
emergência em que afundou outra vez, com lama nos pés e nenhuma esperança nas
autoridades, esta gente humilde e sem ter para onde ir, cujas fotos e
imagens, nestes dias, me lembram as cenas bíblicas do êxodo sem amparo.
É assim, enlameado da cabeça aos pés, correndo da chuva, do risco do
rompimento de barragens, dos rios que engolem cidades, que o povo passa o
verão que se transformou, nos últimos anos, na estação do medo, da
perplexidade e da impotência.
''O bairro acabou'' - disse Alexandre Vigianni, morador e comerciante em
Teresópolis que, mesmo antes de contar os prejuízos, emendava: ''O pior são as
vidas. Ainda tem muita gente desaparecida''.
Como um transeunte sem ter para onde ir, Oscar Carvalho também contava que o
que viu em Teresópolis ''foi um cenário de guerra''. Nenhum tiro, ''mas carros
sendo levados pela correnteza como se fossem de brinquedo''. E quando ele
falou assim, ''de brinquedo'', lembrei do mundo que não acabou na infância ,
mas que agora acaba, do dia para noite, em cidades tão frágeis que até
parecem de papelão.
Mas ali, no meio do caos, entre desabamentos, árvores cobertas pelas
enxurradas, mortos sob escombros, ainda viceja um tipo de solidariedade que
plana sobre o terrível. Vizinhos incansáveis procuram por amigos mortos,
motoristas pedem aos repórteres de TV que ''avisem à Defesa Civil que lá no
alto tem muita gente precisando de ajuda''. Depoimentos sobre a tragédia não
faltam mas, sobretudo, sobra um apelo de pessoas que amam pessoas, ainda que
entre os mortos e feridos haja uma multidão de desconhecidos.
Nestas horas, a solidariedade brilha como a última chama da nau dos afogados,
da nau dos desgraçados, da nau de mais uma estação sem luz quando ''o mundo
acabou'' - sim acabou - para milhares de pessoas que têm de recomeçar do nada,
como personagens da tragédia anunciada que mais uma vez virou notícia,
deixando em comoção um país que repete o êxodo.
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