PALAVRA - ''Não gosto da mídia, mãe''
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de abril de 2011
Célia Musilli 
Neymar, um dos jogadores mais populares da atualidade, é o novo garoto-propaganda da Nextel. Na TV, ele aparece numa praia, fala da carreira, diz que quer ser igual ao pai no futuro e, num texto ensaiadíssimo, declara: ''Você me xingou quando eu errei, e gritou quando eu não escutei. Você me deu carinho, amor e noção de felicidade.''
Normalmente, eu acharia o texto apenas forçado no comercial com aquela pegada emocional que a publicidade utiliza tão bem, transformando anúncios quase em poesia. Mas ele passaria sem chamar minha atenção se meu filho Fernão não comentasse: ''Ninguém vive assim.''
- Assim como? - perguntei.
- Assim, de dentinhos brancos, sempre andando na praia e falando coisas bonitas.
Claro que percebi que havia na sala alguém muito esperto e me animei com a observação de um carinha de 14 anos que não 'compra' a ideia de felicidade vendida nos anúncios da telefonia e dos potes de margarina. Foi-se o tempo em que a gente acreditava que teria um 'sono mais tranquilo com cobertores Parayba' ou 'uma vida iluminada por lâmpadas GE.'
Orgulhosa da perspicácia do Fernão, resolvi instigar:
- O que você pretende fazer com estas suas análises? Vai ter uma profissão crítica? Vai ser jornalista?
Ele logo entendeu onde eu queria chegar e antes que indagasse: ''O que você vai ser quando crescer?'', rebateu com a categoria de um Neymar de outras goleadas:
- Não gosto da mídia, mãe.
- E gosta do quê?
- De desenho, de animação, de arte.
Resolvi dar mais corda:
- E se você for um desses artistas que fazem crítica, arte de protesto ou humor? Pode ser chargista, já que gosta de desenhar.
- Não quero fazer arte crítica, mãe.
- Quer o que, então?
- Sei lá. Só sei que não existe esta coisa perfeitinha de comercial de televisão.
Fiquei quieta, pensando que a postura dele lembrava vagamente minha sede de protesto no fim dos anos 70, começo dos 80, quando queríamos um novo mundo no lugar do velho, mas ainda embalados por alguma utopia. Estou para descobrir qual a utopia dos adolescentes na atualidade. Esta geração inteligente, que interage virtualmente com amigos e culturas globais, tem uma noção de realidade apurada que desdenha da felicidade dos comerciais de margarina e não bota a menor fé nas 'receitas' de ídolos como Neymar. Foi-se o tempo em que todo mundo queria ser Pelé. Foi-se o tempo da vida 'iluminada por lâmpadas GE.'
Agora, eles transitam numa supra-realidade sem muita ilusão, meio niilistas, mas dá para se orgulhar da noção que têm do que é verdadeiramente humano, incluindo-se defeitos e qualidades, perfeições e imperfeições na lista. Ainda bem que o Fernão sabe que não existem só pessoas de dentes branquinhos, dizendo textos ensaiados ao celular. Ingênua sou eu, ao imaginar que seria necessário mais algum protesto. Não engolir a representação de um mundo pronto é a grande crítica.
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