PALAVRA - Memórias
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de abril de 2011
Célia Musilli 
Gosto de comparar as crônicas às fotografias. Flagrar uma cena ou acontecimento pela escrita exige empenho parecido com o de utilizar a câmera na hora H, captando um instante que, paradoxalmente, será engolido pelo tempo no instante seguinte. Aquele gato na janela, lambendo os pelos molhados de chuva, nunca mais. Aquele casal se beijando na rua, ele de jeans, ela de vestido azul, nunca mais, pelo menos às 14h45 do dia 12 de março, quando um flagrante me permitiu registrar a cena de amor não pela imagem, mas pela escrita.
Fico pensando no que não fazemos para apreender o tempo. Bicho de memória, o ser humano começa a guardar arquivos ainda no berço e segue acumulando recordações pela vida afora, até o fim dos dias, se tiver a sorte de não ser acometido pelo mal da falta de memória, que equivale a viver sem passado ou até mesmo ausente da própria identidade. Querem coisa mais triste?
Eu, que morro de medo de ficar sem memória, me dedico a enfileirar letrinhas a cada vez que me deparo com uma cena que me emociona, cativa ou me provoca inquietude, mexendo com meu senso de justiça, direitos ou o que quer que tenha o dom de me inserir na vida de um modo coletivo. Mas gosto mesmo é do mistério individual de escrever poesia.
Perdi a conta dos instantes que guardei numa crônica movida por um acontecimento. O melhor é compartilhar o flagrante com outras pessoas, que leem o texto e aplicam sobre ele a película de suas próprias experiências. Assim, o cronista não deve lastimar as pedradas que leva quando escreve algo que mexe com os demônios dos outros e deve celebrar quando toca o fio de alguma sensibilidade que vive nos corações alheios e floresce quando a regamos com outras palavras.
Escrever é um ato contínuo de compartilhamento de nossos flagrantes, das histórias que vivemos ou criamos, deixando sobre elas nossas sombras ou nossos coloridos.
Gosto às vezes de reler as crônicas como quem folheia um álbum, também guardo cartas e e-mails de quem fala comigo tocado por uma frase, um texto, enfim, um estado de espírito que é tão diferente de um dia para outro.
Quando remexo as memórias é quase inevitável não sentir alguma melancolia que é a lembrança do tempo perdido, do gato na janela, do casal se beijando e tantas outras cenas que passam como um filme que não posso rever com a mesma intensidade. Um texto, por melhor que seja, é sempre um arremedo da vida, não sua essência. Pensando assim, sinto que os leitores merecem mais do que a imitação dos acontecimentos. Mais que isso, merecem no seu dia um toque de humor, de graça, de riso que são muito melhores do que a saudade que sinto daquilo que tento flagrar e, de certa forma, me escapa.
Como nem sempre temos o controle dos nossos humores, não dá para prometer alegria no texto seguinte. Mas não custa dizer que se hoje a ôfotografia" foi em tom melancólico, desejo que as próximas sejam coloridas como os dias estupendos de outono, quando todos os caquis amadurecem, deixando tudo com a cor da terra viva. E por preferir sempre o mistério da poesia, me lembro também de Neruda: ôQuero fazer com você o que a primavera faz com as cerejas." O que será, hein?
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