PALAVRA - Lírico e duro
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de maio de 2011
Célia Musilli 
Existem filmes que nos cativam pela beleza, outros nos cativam pela sabedoria. ''Poesia'', dirigido pelo coreano Lee Chang Dong, nos emociona pelas duas coisas. Trata-se de um destes filmes que transpassa nossos sentimentos, chega ao fundo, toca em questões essenciais como a educação dos filhos, mexe com nossa ótica, nos ensina a refinar os julgamentos. Traz a história bonita e dolorosa de uma avó diagnosticada com o mal de Alzheimer, que cria o neto após a separação dos pais. Ela leva uma vida difícil mas quer aprender a escrever poesia, porque ainda não desistiu da beleza. Um dia, descobre que o neto e mais cinco adolescentes se envolveram no estupro de uma colega de escola que acaba se suicidando. A partir daí, abre-se uma sequência de fatos que dá uma boa reflexão em datas como a de hoje: Dia das Mães.
Pois é, podíamos falar de flores e presentes. Mas o filme me abriu os sentidos para as situações delicadas que implicam na avaliação dos erros dos filhos e no preço de se fazer 'vista grossa'. A tendência natural dos pais, quando os filhos cometem um grande erro, é acobertar as coisas, tentando preservar o futuro da 'cria'. Não precisamos esticar demais a memória para nos lembrarmos de inúmeros casos. A avó que vi no cinema caminha na contramão, incomoda-se desde o início com a atitude dos pais que querem preservar os filhos a custo da omissão, indenizando a família da moça que se matou depois de sofrer uma violência. Tentam assim lavar suas consciências.
No filme, o desfecho é outro, a avó entrega o neto à polícia. E dito desta forma, nua e crua, podemos pensar na sua 'frieza'. Mas não se trata disso. Sua atitude se dá por amor, a denúncia significa dar ao neto um caminho de volta, ensinando-o a ter consciência sobre os próprios atos. Sua decisão é amparada por uma cena linda em que ela ensina ao neto o valor da limpeza do corpo e da mente, o valor das unhas aparadas e da conduta correta. Existem coisas que só nós podemos ensinar aos nossos filhos, ainda que de forma dolorida. Porque amor não significa ignorar os erros, mas encontrar uma forma de passá-los a limpo ainda que isto implique em sofrimento, porque a dor é preferível à omissão. A dor realiza alguma coisa, num sentimento íntimo e milagroso. Enquanto a omissão não realiza coisa alguma, ao contrário, é um pacto de fingimento que dá a impressão, mas só a impressão, de que nada aconteceu.
Saí do cinema perguntando se eu seria capaz de entregar um filho à justiça caso ele fosse responsável pela morte de uma pessoa. O assunto é pesado, hoje podíamos falar de flores e presentes. Mas todos os dias, e não só no Dia das Mães, a gente tem que afinar os sentidos para o que significa formar seres humanos, firmando um compromisso.
''Poesia'' retrata uma situação contemporânea, adolescentes criados numa grande cidade, mergulhados num universo virtual, com poucas chances de vivenciar sua afetividade e até mesmo fazer parte do mundo real. Suas vidas se restringem a se empanturrar de pizza e vídeo games. O cotidiano é um bater de portas e de isolamento, sem espaço para diálogos, com pais e avós que não acompanham a velocidade dos novos códigos de comunicação estabelecidos entre adolescentes e máquinas. Num mundo assim, veloz e sem contato com sentimentos, não há tempo para diálogos nem julgamentos essenciais. Mas em ''Poesia'' a avó percebe que deixar o neto impune significaria tirar dele as chances de se tornar um ser humano de fato, com capacidade de avaliação e arrependimento. Se a questão não é simples no cinema, quem dirá na vida. Mas saí da sessão com a certeza de que educar um filho é comprometer-se com sua felicidade, dando a ele a chance de aprender que é um elo da corrente humana. Nossos erros repercutem nos outros, é inevitável, e a dor do outro não é diferente da nossa. Estragar um elo, com educação fingida, é estragar todo o fluxo da corrente, forjando uma ética individualista, uma ótica torta e uma vida sem poesia. E a avó do filme achava que podia ser poeta porque gostava de flores e dizia coisas esquisitas.
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