Existem filmes que nos cativam pela beleza, outros nos cativam pela sabedoria. ''Poesia'', dirigido pelo coreano Lee Chang Dong, nos emociona pelas duas coisas. Trata-se de um destes filmes que transpassa nossos sentimentos, chega ao fundo, toca em questões essenciais como a educação dos filhos, mexe com nossa ótica, nos ensina a refinar os julgamentos. Traz a história bonita e dolorosa de uma avó diagnosticada com o mal de Alzheimer, que cria o neto após a separação dos pais. Ela leva uma vida difícil mas quer aprender a escrever poesia, porque ainda não desistiu da beleza. Um dia, descobre que o neto e mais cinco adolescentes se envolveram no estupro de uma colega de escola que acaba se suicidando. A partir daí, abre-se uma sequência de fatos que dá uma boa reflexão em datas como a de hoje: Dia das Mães.
Pois é, podíamos falar de flores e presentes. Mas o filme me abriu os sentidos para as situações delicadas que implicam na avaliação dos erros dos filhos e no preço de se fazer 'vista grossa'. A tendência natural dos pais, quando os filhos cometem um grande erro, é acobertar as coisas, tentando preservar o futuro da 'cria'. Não precisamos esticar demais a memória para nos lembrarmos de inúmeros casos. A avó que vi no cinema caminha na contramão, incomoda-se desde o início com a atitude dos pais que querem preservar os filhos a custo da omissão, indenizando a família da moça que se matou depois de sofrer uma violência. Tentam assim lavar suas consciências.
No filme, o desfecho é outro, a avó entrega o neto à polícia. E dito desta forma, nua e crua, podemos pensar na sua 'frieza'. Mas não se trata disso. Sua atitude se dá por amor, a denúncia significa dar ao neto um caminho de volta, ensinando-o a ter consciência sobre os próprios atos. Sua decisão é amparada por uma cena linda em que ela ensina ao neto o valor da limpeza do corpo e da mente, o valor das unhas aparadas e da conduta correta. Existem coisas que só nós podemos ensinar aos nossos filhos, ainda que de forma dolorida. Porque amor não significa ignorar os erros, mas encontrar uma forma de passá-los a limpo ainda que isto implique em sofrimento, porque a dor é preferível à omissão. A dor realiza alguma coisa, num sentimento íntimo e milagroso. Enquanto a omissão não realiza coisa alguma, ao contrário, é um pacto de fingimento que dá a impressão, mas só a impressão, de que nada aconteceu.
Saí do cinema perguntando se eu seria capaz de entregar um filho à justiça caso ele fosse responsável pela morte de uma pessoa. O assunto é pesado, hoje podíamos falar de flores e presentes. Mas todos os dias, e não só no Dia das Mães, a gente tem que afinar os sentidos para o que significa formar seres humanos, firmando um compromisso.
''Poesia'' retrata uma situação contemporânea, adolescentes criados numa grande cidade, mergulhados num universo virtual, com poucas chances de vivenciar sua afetividade e até mesmo fazer parte do mundo real. Suas vidas se restringem a se empanturrar de pizza e vídeo games. O cotidiano é um bater de portas e de isolamento, sem espaço para diálogos, com pais e avós que não acompanham a velocidade dos novos códigos de comunicação estabelecidos entre adolescentes e máquinas. Num mundo assim, veloz e sem contato com sentimentos, não há tempo para diálogos nem julgamentos essenciais. Mas em ''Poesia'' a avó percebe que deixar o neto impune significaria tirar dele as chances de se tornar um ser humano de fato, com capacidade de avaliação e arrependimento. Se a questão não é simples no cinema, quem dirá na vida. Mas saí da sessão com a certeza de que educar um filho é comprometer-se com sua felicidade, dando a ele a chance de aprender que é um elo da corrente humana. Nossos erros repercutem nos outros, é inevitável, e a dor do outro não é diferente da nossa. Estragar um elo, com educação fingida, é estragar todo o fluxo da corrente, forjando uma ética individualista, uma ótica torta e uma vida sem poesia. E a avó do filme achava que podia ser poeta porque gostava de flores e dizia coisas esquisitas.
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