Em matéria de música, meus filhos se orgulham de mim e eu deles. Neste quesito não há choques de gerações. Não sei como isso se deu, trabalhando muito depois que nasceram, não tive tempo para dar uma educação musical, aquilo de passar horas ouvindo som e dizendo: ''Filho, este é o fulano, toca em tal banda''. Não, a coisa se deu muito mais por afinidade do que por convivência. Um dia, com eles já grandinhos, percebi que ouvíamos as mesmas músicas: Beatles, Led Zepellin, uma trilha de blues, The Doors, uma pitada de Guns N' Roses e música brasileira como Rita Lee, Mutantes, Legião Urbana, Titãs, entre tanta gente boa. Não sei como Deus jogou os dados, mas o fato é que caímos todos na mesma casa musical.
Hoje, um dedilha violão, guitarra, outro batuca por conta própria, é só colocar uma bateria na mão dele que vai sair muita coisa. Meus filhos são musicais. Nossas audições lá em casa têm acontecido à noite, os concertos também. Agora são uns rapazinhos que no meio da conversa fiada para pedir dinheiro, aumentar o tempo no computador e sair com os amigos, vêm dizer coisas simpáticas: ''Mãe, feliz foi quem curtiu os anos 60, 70, até 80. Era muita banda boa, as melhores do mundo''. E insistem que os anos 60 deveriam se chamar 'Século 60'. Vai saber de onde tiram estas coisas.
Até por isso, esta semana, investi um tempo na audição com eles. Tirei do baú umas pérolas que nem eu mesma ouvia há muito tempo. The Turtles, Animals, o velho Doors, Eric Clapton - que fez a música com a qual batizaram a cachorrinha basset lá de casa: Layla. Impressionaram-se com o vocalista do The Animals, Eric Burdon, que tinha mesmo um vozeirão. Impressionante vê-lo cantando o hit ''House of The Rising Sun'' (A Casa do Sol Nascente) com aquela cara de moleque e timbre de tenor, emprestando a emoção necessária à música de Nina Simone. Perguntaram-me se a banda veio antes ou depois dos Beatles, disse que depois e que sofreram a influência dos Fab Four, os cabelos e o figurino não negam, com aquele toque de 'conjunto', como se chamavam as bandas, com seus terninhos que pareciam uniformes. Os clips, quando assistimos hoje, parecem mesmo sair da máquina do tempo, cheiram a passado, mas é um passado bom, sem traumas, embora House of the Rising Sun seja uma balada que chega a doer de tão bonita. Pesquisem no Youtube e depois me digam, há uma versão em alta definição belíssima e os músicos têm olhares inocentes. Uma geração inteira cantou esta música, meu irmão mais velho não se cansava de repeti-la depois do jantar, a ponto de perguntarmos se não sabia outra canção. O tecladista Alan Price nos leva às alturas, o guitarrista Hilton Valentine tem um sorriso quase bobo, encantado, ao que parece, com a performance de saírem em fila indiana, andando pelo estúdio. Coisa de rir e chorar de tão simples e bonita.
Depois ouvimos The Turtles, cujo maior sucesso, Happy Together, foi o que me inspirou a procurar estes rastros musicais. A música faz parte trilha do filme Imagine Me & You, de 2005, e é realmente contagiante. Os Turtles condensavam a alegria dos anos 60, encarnavam a liberdade dos colegiais norte-americanos, com suas pequenas transgressões que transbordariam nos anos seguintes. O filme Imagine Me & You aproveita a música para embalar a história de um amor homossexual. Mas, muito antes, ela embalou bailinhos de escolas, com todo mundo querendo 'pegar'todo mundo. Não estranho que hoje meus filhos queiram 'pegar' alguma coisa quando a escutam. A gravação de 1967 tornou-se histórica por ter desbancado Penny Lane, dos Beatles, nas paradas de sucesso. Ainda hoje desbancaria tantas coisas, a gente sai dançando quando escuta aqueles versos que terminam com o refrão: ''So happy together''. Quando o ouvi com meus filhos, ficamos mais felizes. Era a sessão possível com dois adolescentes.
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