O gato
Da janela vejo o gramado. Mais além, a linha das casas de todas as cores e a imagem reduzida de um gato andando sobre um telhado. Se todos os gatos da cidade saíssem ao mesmo tempo, teríamos um mar de plumas ondulantes e a visão dos seus rabos espetados como antenas. Sempre me pergunto o que captam. As tendências do clima? Humores? Sinais extraterrestres? Prefiro a cena mil vezes a ler o enfadonho noticiário político ou ter pensamentos sombrios que me tomam nas manhãs sem sol.
Um gato é um gato, é um gato, é um gato... Eu não sou Gertrud Stein. Mas adoro paisagens em câmera lenta.

O pássaro
Nesta manhã, um pássaro me visitou subitamente. Perdeu o rumo, atravessou a janela e ficou na minha sala saltitante. Tratei de abrir as portas, como se deve fazer para as criaturas que desejam ir. Antes, observei seus pulos em volta da minha cadeira, o debater das asas, o susto de se encontrar num ambiente estranho de forma repentina. Também corri para retirar o gato. Sou avessa a mortes desnecessárias e as comparo a certos sacrifícios sem motivo.
Às vezes me sinto como um pássaro, moldando meu voo a circunstâncias que não desejo, mas que acontecem, me deixando nada mais que a necessidade de uma adequação. Nem sempre deixam portas abertas, tampouco respostas. E quando este vazio é o resultado inesperado de uma plenitude que se esvai sem que ninguém explique por que, penso na fragilidade das relações humanas, como um pássaro que se debate. Então, percebo que tenho que me adaptar à realidade pela falta absoluta de um caminho onde caibam minhas perguntas. E cumpro o rito contrariada. São tantas as águas, as lágrimas, a saliva, os fluidos que se esvaem para deixar seco o leito do meu imenso afeto.
Acho que, no fim de tudo, apenas nos tornamos mestres na arte de fazer o líquido caber na garrafa. Mas emoções transbordam.

Aracnídea
a aranha
sobe e desce
ao mundo feio
como lhe parece

O peixe
Já tive um peixe no aquário. De dia ele se rebelava, batendo a cauda e a cabeça nas paredes de vidro. À noite, a luz suave do abajur lhe dava a impressão de que estava de volta às profundezas e liberdade do oceano. Ele se aquietava, sonhando.
Às vezes me sinto como um peixe. E quem não se sente? Por isso os sonhos são necessários em circunstâncias em que não podemos sair, dando braçadas atrás de tépidas correntezas.
Um dia devolvi o peixe às grandes águas, prezo muito a liberdade, o mar me atrai pelo que tem de beleza, raridade, imensidão.áNão poderia negar a um só peixe este mergulho.


A cobra
de repente uma ilusão
de ótica serpente
arrastando seu veneno
preto-e-branco
sob o sofá azul
que é um dossel que
agora invento
tóxica ação
do meu indócil
pensamento

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