Eu sei que a vida é dura e que a rotina ofende nossa sensibilidade, a nossa integridade, muitas vezes nos roubando o fogo dos deuses, nos deixando as cinzas e dizemos rindo: ‘‘Hoje virei pó’’. Ainda assim, tenho vontade de fazer as coisas mais loucas, fazer perguntas carinhosas e impertinentes, para você leitor, para mim, para todos os que compartilham a tentativa de viver intensamente, enquanto a massa marcha e amassa cada existência que poderia ser ímpar.
  Minha vontade é deixar atrás de mim, de nós, um rastro luminoso, um meteoro perdido neste deserto onde às vezes brotam flores, como esta minha vontade de subverter a ordem e consagrar as coisas à desordem do êxtase que acontece naqueles momentos em que saímos de nós, rumo a uma coisa maior do que o dia, a semana, o mês. Trata-se de nossa vontade de infinito.
  Hoje saí de mim. Depois de contemplar um dia de chuva caindo para atrapalhar o trânsito e lavar a alma, resolvi deixar a roupa suja num cesto invisível e repensar a vida numa perspectiva de beleza e claridade que me inspiram os sentimentos mais loucos. A transgressão passa pela escrita, pela palavra, este signo que soletra a verdade mas não a apreende porque, como já disseram, palavra e desejo são coisas que escapam. A gente pega um sentido, as coisas se desdobram em outros e, mesmo assim, como uma nômade de paisagens íntimas, formulo minha curiosidade que estendo a vocês, como um modo de transformar o dia e descobrir as coisas, essas que escondemos na rotina, que não perguntamos por medo, que guardamos até saber que perderam a validade. E, quando isso acontece, não tem mais jeito.
  Então, enquanto estamos dentro do ‘‘prazo de validade’’ - embora sem remédio, sem receita e sem bula - gostaria de fazer algumas perguntas em forma de entrevista e, por favor, me tratem, como se fosse uma repórter dessas revistas importantes para quem todo mundo responde o melhor de si, caprichando na realidade e pintando aqui e ali uma resposta com asas, para ficarem mais livres, nem que seja por um instante.
- Quem é você?
- O que faria de novo?
- O que diria a alguém que nascesse agora?
- O que diria a alguém que vai partir para sempre?
- Você é feliz?
- Você ama com o corpo ou com a alma?
- A beleza é um conceito ou um estado de espírito?
- Você bebe a lua todas as noites?
- Em que local do seu corpo fica a saudade?
- Sua mente sente?
- Seu coração dispara todos os dias?
- Que sonho você sonharia novamente?
- Qual sua melhor lembrança?
- Finalmente, cite um poema que você adora.
Deixo as perguntas, desejando inspiração a todos em todas as respostas. Por favor, sejam intensos e verdadeiros, talvez nunca mais alguém pergunte as mesmas coisas. Por que responder? É simples. Pela graça de exercitar o autoconhecimento e registrar coisas importantes.

mockup