PALAVRA - Avidez pelo escândalo
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de janeiro de 2011
Célia Musilli 
O furacão Amy Winehouse passou pelo Brasil com muito menos força do que a das últimas enchentes. A turnê da cantora inglesa por cinco capitais trouxe shows sem muitas novidades, mas ainda com o encanto da melhor voz da soul music de que se tem notícia nos últimos anos. O triste é perceber que as expectativas da imprensa e mesmo dos fãs eram de que a turnê fosse pontuada por escândalos e decadência física. As atenções estavam mais voltadas para o seu mau comportamento do que para suas canções.
Gosto demais de Amy, além do timbre encantador e do repertório de bom gosto, vejo nela o traço das mulheres excessivas, das artistas como Edith Piaf e Janis Joplin que não conseguem, nem devem , se comportar como Pollyannas. Mas o grande público parece exigir equilíbrio dos criativos desequilibrados e eu sinto asco da mídia que mastiga celebridades no que elas têm de melhor e pior. As estrelas incensadas são devoradas igualmente, sem piedade.
Na passagem de Amy pairou no ar uma aspiração mórbida pela sua decadência. Havia uma torcida declarada para a que a celebridade com grandes problemas de autoestima tropeçasse mais uma vez nos corredores da fama, protagonizando um 'barraco', virando a mesa, perdendo de vez a consciência para oferecer-se em carne viva aos açougueiros de plantão. Não resta dúvida de que Amy está em franca decadência, só redimida por sua voz ainda poderosa e uma transgressão que, acima do Bem e do Mal, faz sua história rolar sobre outras pedras. Ela é emblema e reflexo de um tempo triste.
Sua performance, que seria mais adequada a espaços intimistas, ficou sob os holofotes de grandes estádios onde o público parecia checar se havia ou não ali uma Amy 'novinha em folha' , depois de dois anos fora dos palcos e vagando entre as drogas e as clínicas. Claro que todo mundo sabia que o 'espetáculo' à parte seria o de uma Amy cambaleante em muitos momentos e que parecia se movimentar nos palcos sem muita consciência de onde estava e o que fazia. Mas ninguém precisava torcer por isso. Ela repetiu a performance que é sua marca registrada à exaustão, a de cantora intensa, que brinca à beira do abismo da arte e da morte. Sem correr tantos riscos talvez tivesse menos fãs, mas isso não justifica a formação de uma torcida organizada que anseia por atos impróprios na ópera ao vivo.
No fim das contas ninguém foi mesmo bonzinho com mais uma celebridade dependente de drogas. Jornalões e revistas estamparam fotos de Amy dentro de carros mostrando as calcinhas e o tombo em Recife mexeu com a libido de quem pagou para ver não o show, mas o escândalo.
Isso faz parte da 'sociedade do espetáculo', cuja repetição exaustiva de programas burros como os BBBs dão conta do tipo de diversão que o público espera, um público que também se comporta como animal amestrado. Todo mundo quer câmeras mostrando a decadência disfarçada pelo rótulo de 'variedades', como bem aproveita parte da mídia dedicada hoje mais aos apelos de mau gosto do que à arte. E tudo ganha no alto das páginas o selo de 'Cultura'.
Neste embalo, é muito triste constatar o gosto mórbido e crescente pelos dramalhões da ficção e da realidade. A passagem de Amy Winehouse pelo Brasil mostrou a avidez pela exposição das vísceras de uma estrela. Uma artista com grandes chances de ter vida breve e que continua sim precisando mais de tratamento do que do escárnio.
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