PALAVRA - Além do espelho
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de janeiro de 2011
Célia Musilli 
Nunca fui consultora sentimental, a não ser na intimidade com algumas amigas que, volta e meia, vêm me fazer aquelas perguntas que a gente só faz para pessoas muito íntimas. Mas pelo fato de escrever aqui e ali, de vez em quando recebo e-mails que são verdadeiras consultas, principalmente de mulheres que imaginam que tenho respostas. Esta semana quem me escreveu foi Maria Lúcia para falar de uma dúvida tipicamente feminina: Me relaciono há três meses com um rapaz pela internet, nossas conversas parecem não ter fim, falamos diariamente e já trocamos fotos. Acho que, pelas fotos, ele percebeu que sou gordinha, mas agora me propôs um encontro e estou com medo dele me achar feia. Acha que devo desistir de encontrá-lo e manter somente a ilusão?
A primeira coisa que pensei quando li o e-mail de Maria Lúcia é que a gente não deve deixar de viver porque tem quilos a mais ou a menos. Se um homem deixar de se interessar por uma mulher porque ela não corresponde a um padrão de beleza, melhor mesmo que caia fora. De gente fútil o mundo está cheio e, pelo menos da minha parte, não desejo me relacionar com pessoas que só desejam as embalagens. Se vocês conversam diariamente Maria Lúcia, o rapaz deve se interessar pelo seu modo de ver o mundo, sua leitura das coisas e, pelas fotos, se você não blefou com o photoshop a ponto de se transformar em sereia, ele deve saber que você foge ao padrão das revistas, mas é tão autêntica que não precisa fingir ser quem não é.
Por outro lado, prepare-se também para aceitar defeitos alheios. Os príncipes nem sempre vêm a cavalo nem têm olhos azuis. Digo isso porque percebo cada vez mais a necessidade de se construir imagens e - coisa gravíssima - idealizar amores a partir da altura, peso e medidas, quando a medida das coisas não passa só pela aparência.
Sim, claro que desejamos ser bonitas e devemos ressaltar nossas qualidades, incluindo as físicas, sem reduzir as interioridades, o charme de nossa personalidade, a curiosidade de aprender coisas novas, o espírito aventureiro de quem adora viagens. Tudo isso soma na criação de uma identidade que não cabe, simplesmente, no vasilhame de um corpinho perfeito com cabeça ruim.
No encontro, Maria Lúcia, você deve e pode investir nos seus pontos fortes - todos nós os temos - e favorecer o corpo com um decote, um acessório bonito, um perfume diferente daqueles que sentimos em todas as festas. As mulheres hoje já não investem nas diferenças, investem no similar, assim temos batalhões de loiras - ou morenas - de cabelos lisos, óculos escuros, seios de silicone e cheirando a Ralph Lauren. Tenho prazer em me consultar de vez em quando com uma amiga que é aromaterapeuta e formula essências originais para cada pessoa, de acordo com seu temperamento ou necessidade de equilíbrio físico, psíquico e emocional. Invariavelmente, quando uso um dos seus perfumes, alguém os sente e pergunta Nossa, que delícia, o que é isso? Porque aquele perfume não foi sentido antes em lugar nenhum e, sendo bom, delicado e único, faz a diferença.
Padronizar beleza, comportamento, cheiros e até emoções é um dos males contemporâneos. Recentemente vi fotos de mulheres nuas dos anos 50 e todas tinham seios em formatos diferentes, o que é natural. Embora hoje os 250 mls de silicone em cada peito garantam às mulheres o mesmo peso e medida, como todas as passistas de escola de samba balançando a mesma estrelinha na ponta dos melões.
Para finalizar, devo dizer que sua pergunta embute um problema de autoestima, mas por favor, não meça o interesse ou desinteresse de alguém por você pela aparência. Todos nós passamos por experiências de aceitação e rejeição ao longo da vida e garanto que até as modelos, com tudo certinho, já levaram o fora. Da mesma forma, conheço experiências felizes de pessoas que não são bonitas mas provocaram amores assim, à distância ou bem perto. Tenho uma amiga, totalmente desprovida de beleza padrão, que se casou com um estrangeiro que conheceu na internet e que não se cansa de chamá-la de fofa, gordinha e outros tantos elogios que só cabem na língua dele e na linguagem de quem realmente ama. Então, seja você mesma Maria Lúcia e lembre-se que a felicidade chega por caminhos muito próprios e que é mais estimulante quando desobedece padrões.


