PALAVRA - A tragédia e seus coros
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de abril de 2011
Célia Musilli 
O assunto já saturou, o luto ainda não. A todo momento pensamos naquela tragédia de Realengo, tudo está aí para lembrar os mortos. Por mais que eu tente encontrar outros temas, teria que ser um E.T., morar em Marte para considerar outro assunto quando tudo ainda dói.
Participei de discussões nas redes sociais, elas servem também para isso e não apenas para colocarmos nos álbuns fotos de caras e bocas. Disso o mundo está cheio e no jornalismo uma das minhas maiores tristezas é perceber que a imprensa corrobora com a violência explorando imagens, mostrando o sangue, repetindo insistentemente as cenas de outras tragédias em programas que funcionam quase como um fetiche para o público ávido pela violência. Em tudo notam-se apelos que podem funcionar como a próxima arma a ser detonada em nossas cabeças.
Os gregos sabiam o que estavam fazendo quando criaram a tragédia, os seres humanos precisam de catarses, triste é quando as catarses não se dão no teatro, mas na vida real, e aparece nas páginas dos jornais, nas revistas, nos programas de TV todo o sangue que se consegue extrair de uma sociedade infeliz.
A tragédia de Realengo é pura infelicidade. Infelicidade para os adolescentes que perderam a vida de forma brutal. Infelicidade para o algoz que também foi vítima. Por acreditar que Wellington Menezes de Oliveira também foi vítima, entrei em discussões, porque muitos queriam apenas engrossar o coro grego e gritar: ''Assassino! Assassino!'' É assim que a massa tenta resolver os problemas mais doloridos, cauterizando a ferro e fogo uma ferida sem remédio. Acusar sem racionar é simples, é fruto da revolta natural, alimentada por mentes tão violentas quanto a dos algozes.
Algumas destas mentes estão na mídia, têm espaços e microfones abertos para incitar a violência, não constróem nada, ao contrário, ganham com os crimes, transformando o sangue alheio em mercadoria e tem patrocinadores. O Paraná foi uma triste escola deste tipo de violência midiática. Ainda soam em nossos ouvidos o bordão traumático de um apresentador de TV: ''Cadeia!''. E o crime continua acontecendo, apesar de todo o fascismo e a intenção de sufocá-lo também com porradas.
Os bordões continuam por aí, o Paraná fez uma escola da qual me envergonho e me perdoem se num momento traumático me apego a análises sociológicas. É que na tragédia de Realengo cruzaram-se muitos caminhos, o das crianças vítimas, o do algoz vítima de bullying que compreendo como um sintoma da intolerância e do preconceito que formam o caldo das neuroses. Para o psicanalista Cássio Mattar, de São Paulo, só o bullying não explica a insanidade: ''O bullying foi um fator coadjuvante da tragédia. O mosaico de influências é mais amplo, talvez formado por uma personalidade conturbada, problemática, aliada a uma curva infeliz de vida em que o processo psicótico ganhou corpo''.
A resposta contempla fatores às vezes esquecidos pela mídia, embora nenhuma análise póstuma possa dar conta do que aconteceu na mente de Wellington, sua ''caixa-preta'' desapareceu com ele sem deixar pistas seguras. A única intenção deste artigo é refletir sobre a tragédia e aprender alguma lição na tentativa de criar um mundo menos intolerante. Esta lição passa pela educação das crianças de modo que elas não repitam os padrões de violência que as incitam a ''zoarem'' com o gordo, o magro, o feio, o louco, o pobre. Parece pouco, mas assim se ensina a ética das relações humanas.
Meu maior temor é o de que hoje a reflexão não faça mais sentido, como se os discursos éticos fossem ecos distantes de uma civilização que se perdeu. Os coros da violência e do bullying estão aí para comprovar a possibilidade de novas tragédias. Parece que além de continuarmos brutos, conseguimos ser apenas mais sarcásticos.
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