PALAVRA - A solidão mora ao lado
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de maio de 2011
Célia Musilli 
Acordei com uma voz fraquinha chamando ''Clarice, Clarice''. Num primeiro momento, pensei que fosse uma criança querendo a babá. Pouco antes, torcia para que um fato inusitado inspirasse o tema da minha crônica. Mal sabia que a voz que dizia ''Clarice'' era um chamado para escrever sobre a solidão. Demorei um pouco para compreender o pedido de socorro que saia da casa vizinha. Fui para a rua e encontrei outras pessoas preocupadas com o mesmo chamado e, aos poucos, foi se desenhando a identidade de alguém que não conhecia: Dona Olga, 90 anos, vive reclusa ao meu lado. Não sai para nada, teve quatro filhos, dois adotivos, e agora vive sozinha porque se recusa a sair da casa onde criou família e raízes.
Seu chamado indicava que uma coisa grave havia acontecido. Não foi difícil imaginar que sofrera uma queda e, com problemas de audição, não entendia quando perguntávamos do lado externo da janela trancada o que havia acontecido. Continuava chamando ''Clarice, Clarice'' que, soube depois, é o nome da sua faxineira e também o de uma vizinha que a conhece há 40 anos. Daí, talvez, o motivo dela chamar o nome em par.
Sou nova no bairro, onde moro há pouco mais de um ano. Sabia que havia gente idosa na vizinhança, mas imaginava um casal, não apenas Dona Olga com seu louro e seus dois cachorros. À noite ouço ruídos da solitária dona da casa. Ela liga a TV em volume máximo e fico com a impressão de que um trio elétrico passou fora de hora. Que nada, é Dona Olga assistindo ao programa da Hebe, como se quisesse compartilhar as novidades com a vizinhança. Ela não escuta bem, por isso aumenta o volume. Este é todo barulho que faz durante dias a fio, de modo que aprendi a não me incomodar tanto, a TV de Dona Olga é seu sinal de vida.
Tirando os ruídos, Dona Olga nunca me comunicou nada. Parece um destes objetos perdidos no oceano que emite sinais fazendo bip...bip. Dona Olga está perdida num mar urbano, no bairro em que mora há mais de 40 anos e o programa da Hebe é sua única parabólica para sintonizar o mundo.
Na manhã em que caiu sem poder se levantar, tratei de buscar o chaveiro. O moço demorou a chegar e fui sentindo o nervosismo de quem tem uma missão muito importante: resgatar Dona Olga de sua solidão. A tarefa não foi das mais fáceis, quando o chaveiro chegou, soubemos que havia não apenas uma, mas três portas trancadas, até chegarmos ao seu quarto. Descobri assim que sua solidão é blindada. Quando a primeira porta se abriu, demos com uma sala grande onde há um piano que ninguém toca. Na casa ao lado nunca ouvi Schubbert ou Chopin, apenas uma musiquinha que uma vez alguém cantou, falando de coisas da China e imagino que seja uma homenagem ao cachorro Shaolin, o preferido de Dona Olga. Depois da ''viagem cantada'' às terras do imperador, nunca ouvi uma viva voz naquela casa, tão colada à minha. Dali só saem ruídos eletrônicos e alguns latidos.
Quando a segunda porta se abriu, encontramos o louro, numa gaiola com cadeado. Soube depois que a ave é a única que sobrou, capturada em alguma mata, e que um dia teve a companhia de outros dois papagaios, vendidos pela neta de Dona Olga à sua revelia. Abrir portas dá nisso, a gente vai abrindo a vida das pessoas. Fica sabendo que têm filhos, netos, cachorros, papagaios e medo, muito medo, da solidão e também das pessoas.
Quando a terceira porta se abriu, encontramos Dona Olga no chão, chamando Clarice e tentando alcançar o andador. Um cachorro montava guarda à sua volta, ganindo pela má sorte da dona. Cão e mulher eram ali uma manifestação de amor, a única da casa onde, de resto, só havia fotos e lembranças.
Dona Olga foi colocada numa maca, sob os olhares curiosos da vizinhança que deixou seu bunker, entristecida. O que fazer? Seus filhos moram longe, em outros estados, os netos só querem o louro para ''passá-lo nos cobres'', como diria uma pessoa de 90 anos que tenta se proteger com portas trancadas.
Naquela manhã, era difícil imaginar o destino de Dona Olga depois da queda. Não sei quando vou tornar a vê-la, se continuará na vizinhança, se alguém virá buscá-la para que tenha companhia e diálogo, além dos gracejos da Hebe, que também silenciaram. Ao ser levada à ambulância, ela chorava silenciosamente, acho que acostumou-se a sofrer calada. Parece que sentia dor, um osso quebrado talvez, e um único pedido para que alguém cuidasse de Shaolin. Hoje vou lá alimentar o cão, como se fosse o filho do imperador.
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