São Paulo, 05 (AE) - O terraço do Palácio do Itamaraty recebe terça-feira, no feriado da Independência, uma exposição com 71 peças assinadas por um dos maiores escultores contemporâneos brasileiros, Sérgio Camargo, morto em 1990. A abertura da mostra vai contar com a presença do presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, que sugeriu à presidente do Conselho Curador da Fundação Armando álvares Penteado (Faap), Celita Procópio de Carvalho, o nome de Camargo. É o quinto ano que ela apresenta exposições no Itamaraty, por intermédio do Museu de Arte Brasileira da Faap.
A curadoria da exposição de Sérgio Camargo é do crítico Ronaldo Brito, autor de um livro sobre o artista, lançado logo após sua morte. Montada pelo cenógrafo Felipe Crescenti com obras do acervo do Gabinete de Arte de Raquel Arnaud e da coleção particular da família do escultor, a exposição conta com um catálogo assinado por Brito e projeto gráfico a cargo do artista plástico Carlito Carvalhosa. Cenário ideal - Na mostra estão reunidas 70 peças em mármore e uma em bronze. Deveriam ter sido incluídas esculturas em madeira
mas o clima seco de Brasília, justifica a marchande Raquel Arnaud, não é indicado para receber essas peças delicadas de Camargo, que podem rachar com o calor. De qualquer forma, como escreve o crítico Ronaldo Brito no catálogo da exposição, Brasília parece mesmo o cenário ideal para receber as esculturas de mármore do artista carioca, nascido em 1930 e um dos mais respeitados nomes do construtivismo.
O encontro entre as esculturas de Camargo e a arquitetura de Niemeyer no espaço urbano de Lúcio Costa, segundo Brito, "assinala um momento histórico de afirmação de nossa modernidade estética". Como denominador comum da obra dos três, o crítico identifica "a recusa de todo gênero de populismo, que ofende o povo ao rebaixá-lo à condição de mero objeto temático". De fato, a obra de Sérgio Camargo é íntegra. O escultor nunca fez concessões ao gosto médio, desde que pisou pela primeira vez, aos 16 anos, na Academia Altamira de Buenos Aires, descobrindo o construtivismo argentino e dois de seus maiores artistas, Emílio Pettoruti e Lucio Fontana. Discípulo de Brancusi - Camargo viajou para Paris dois anos depois, em 1948, entrando em contato com a obra de Arp, Laurens e Brancusi, sendo o último sua grande referência na escultura. Outra grande influência do escultor brasileiro foi Laurens, que pode ser sentida particularmente nos nus femininos em bronze dos anos 50, que antecipam o ritmo e os cortes na produção posterior de Camargo. Nos anos 60, sua escultura já abandonara a figuração
escolhendo o caminho da experimentação com moldes de gesso que levariam a seus relevos, produzidos com módulos de madeira de forma clilíndrica.
No entanto, são as esculturas executadas em mármore de Carrara e negro belga que dominam a exposição, isto é, as obras produzidas entre os anos 70 e 90. Os elementos dos relevos cilíndricos foram reduzidos e geraram as "trombas" no fim dos anos 60. São literalmente trombas porque rompem com o plano, conquistando o volume. Nos anos 70, quando Camargo passou a executar sua obra em mármore de Carrara, essa escultura incorporou elementos seccionados, embora desse método combinatório não tenha resultado nada de programático, como fazia questão de esclarecer o próprio artista. Essa serialização obedecia a uma espécie de geometria empírica. Camargo chegava a identificar como matriz de seu construtivismo serialista a arte islâmica.
Na transversal - A conquista do volume por Camargo sugere um conflito curioso. Entre a redução de Brancusi às formas elementares e o brutalismo de Laurens, o coração do escultor brasileiro oscilou. Eram ambos referências de fora. Camargo passou ao largo das discussões entre paulistas e cariocas sobre concreto e neoconcreto porque, segundo Brito, seu construtuvismo sempre foi transversal. Não estava de modo algum inserido num programa político ou de integração social da arte. Foi um tubarão solitário como Amilcar de Castro. Essa incômoda independência garantiu, porém, a integridade do trabalho dos dois artistas.
Ronaldo Brito chama a atenção, no texto do catálogo da mostra, justamente para essa independência que caracterizou a obra de Camargo - o que justifica sua escolha para comemorar o dia de amanhã, em Brasília. Ele não se submeteu a escolas ou modismo, rejeitou ser reduzido ao estereótipo de antropófago devorador da arte européia e não se encaixou em nenhum nicho, conquistando, mesmo assim, uma posição invejável na história da arte brasileira. Ordem no Brasil - Entre seus outros tantos méritos, Brito destaca a "recusa peremptória de Camargo em submeter-se a uma imagem imposta de fora ou por nós introjetada, do que fosse ou deixasse de ser arte brasileira". Para quem nunca entendeu a razão da escolha de materiais nobres pelo escultor, ele justifica a escolha do mármore Bianco Pí e do raro granito negro-belga, uma espécie de carvão fóssil, como uma exigência, não como "ostentação supérflua". Assim, a "poética apolínea" de Camargo não admitira um mármore que não fosse uniforme, quase sem veios, porque, lembra Brito, essas peças traduzem a "mesma austeridade, o mesmo desprezo por efeitos decorativos, incompatíveis com o alto nível de formalização de seu trabalho".
O crítico Rodrigo Naves identificou na obra de Camargo uma peculiaridade que a distingue do trabalho dos outros escultores filiados ao construtivismo. Apesar de ser uma obra de caráter construtivo, com um processo metodológico claro, a escultura de Camargo desmontava esse caminho, tornando-o explícito depois de concluída. "Seu método desmistificava o próprio método", lembrou Naves quando o artista e amigo morreu há nove anos. Escala humana - Para Camargo, como observou Yves Klein, a função do escultor não é a de criar formas e impor essas mesmas formas ao universo circundante. O artista brasileiro seria incapaz de um gesto voluntarioso como o de Chamberlain ou de perseguir a monumentalidade de um David Smith. Trabalhava numa escala humana e se, de algum modo, suas formas cilíndricas seguem um caminho parecido com as colunas espaciais do alemão Erich Hauser, elas estão mais próximas do princípio de extensão perseguido por Brancusi em sua coluna infinita.
Naturalmente, o terraço do Itamaraty é limitado para receber obras de todas as fases do artista, das mulheres em bronze dos anos 50 à produção dos anos 80, mas uma exposição como a que comemora a Inpependência do Brasil poderia servir de marco zero para homenagear o escultor no primeiro ano do novo século, quando Camargo completaria 70 anos, relacionando sua produção com a de seu mestre romeno Constantin Brancusi. Fica a sugestão para um museu. Por enquanto, as 71 peças de Camargo podem ser vistas até o dia 26 no Palácio do Itamaraty (Esplanada dos Ministérios, Brasília)
de segunda a sexta-feira, das 9 às 13 horas, e aos sábados e domingos, das 15 às 18 horas.

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