A história conta que as cores da Estação Primeira de Mangueira, uma das maiores escolas de samba do País, foram sugeridas por Cartola por inspiração do extinto rancho dos Arrepiados, que o compositor costumava sair ainda menino, acompanhado pela família. O rosa, dizia, representa o amor e o verde, a esperança.
Tricolor, Cartola nunca chegou a revelar se o time de seu coração também o influenciou na escolha das cores. Se vivo hoje, ficaria desolado com o desempenho do rebaixado Fluminense. A tristeza só não seria maior graças a outro tricolor: Chico Buarque de Hollanda, que levou a Mangueira a ganhar o título de campeã do desfile do Grupo Especial desse ano, depois de um jejum que durou longos 11 anos. Cartola, Chico e a comemorada vitória do Carnaval carioca de 98 - ainda que dividida com a Beija-Flor de Nilópolis - são alguns dos fatos contados pelo jornalista Sérgio Cabral no livro ‘‘Mangueira: a nação verde e rosa’’, que traça a trajetória da escola em seus 70 anos de existência.
São 168 páginas ricamente ilustradas com cerca de 160 fotos. O livro, com tiragem inicial de 7 mil exemplares e custo total de U$ 200 mil, foi produzido pela Bolsa Mercantil de Futuros (B,M & F) de São Paulo e será lançado no próximo dia 30, numa festa na quadra da Mangueira, na zona norte do Rio.
‘‘Para nós, esse trabalho representa a realização de um sonho’’, afirma o diretor de eventos da Mangueira, Álvaro Luís Caetano, o Alvim. ‘‘Estamos sempre preocupados com a preservação da história da nossa escola e esse livro é fundamental para ajudar a contá-la.’’ Alvim foi designado pelo presidente da Mangueira, Elmo José dos Santos, para auxiliar na pesquisa e na organização do livro.
O presidente da B,M & F, Manoel Felix Cintra Neto, explica que a iniciativa de fazer a homenagem a verde e rosa foi motivada por seu ‘‘espírito empreendedor’’. ‘‘A Mangueira não é só uma mera escola de samba; ela reflete a criatividade e a iniciativa de realização do carioca, e por extensão do brasileiro, que devem ser seguidas por todos os empresários’’, afirma Neto, que se diz um ‘‘mangueirense por simpatia’’.
Dividido em sete capítulos, o trabalho conta, minuciosamente, os primórdios da escola, seu nascimento, as conquistas e o prestígio internacional que ganhou com os anos - entre as personalidades que lá estiveram figura o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e sua mulher, Hillary. Foi em outubro de 1997, na Vila Olímpica da Mangueira.
‘‘Clinton sentiu-se tão à vontade ao ser envolvido pela comunidade mangueirense que chegou a chutar uma bola que o jovem Bartolo Alves de Paiva, fazendo papel de goleiro, deixou passar’’, lembra Cabral.
Vermelho e suado, Clinton não estava nem aí. Ao lado de Pelé, beijou criancinhas, apertou a mão de desconhecidos e chegou até a se arriscar no tamborim. Foi o puxador oficial da escola, Jamelão, que cunhou a frase que simbolizou a discontraída visita do presidente americano. ‘‘Ele estava feliz como pinto no lixo.’’
A história da Vila Olímpica, que emocionou Clinton, é contada pelo produtor Hermínio Bello de Carvalho em um capítulo à parte do livro, que relata todos os programas sociais mantidos pela verde e rosa. ‘‘Junto ao templo do samba, o Complexo Olímpico da Mangueira, com 35 mil metros quadrados de área construída, abriga o melhor projeto sociocultural dos países em desenvolvimento - palavra da BBC de Londres, que lhe concedeu esse título, em 1997’’, diz Carvalho, logo na abertura de seu texto.
Os projetos sociais da Mangueira atendem a cerca de 4,5 mil crianças e adolescentes, que têm a seu dispor posto de saúde, piscina, computadores, biblioteca, escola, campos de futebol e uma das mais modernas pistas de atletismo do País. Basta dizer que a equipe verde e rosa é octacampeã brasileira de atletismo infato-juvenil.
‘‘A Mangueira não é apenas uma escola de samba, ela é também uma escola de vida, nosso Carnaval dura 365 dias por ano e nós formamos uma verdadeira nação’’, exalta Elmo na introdução. Mas é Sérgio Cabral quem dá o tom definitivo à verde erosa: ‘‘Não há dúvida: é a escola de samba do terceiro milênio.’’Arquivo FolhaChico na Mangueira: início de uma nova (e boa) fase para a escolaMurilo Fiuza de Melo
Agência Estado

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