A vida é cheia de armadilhas, de todos os lados e tantas formas... Mas danada mesmo é a do amor. Prega tantas peças que até os menos crédulos e os mais insensíveis acabam caindo. É uma história como essa que o ator mineiro Jackson Antunes vai contar na pele do valentão Zé Cabriolé, um matador de sangue ruim que se apaixona pelo retrato da moça encomendada.
Três anos depois da estréia, o monólogo ‘‘Memória de Embornal’’ agora leva o público do Festival Internacional de Londrina a uma viagem ao universo sertanejo, embalada pela poesia das palavras e a sedução da linguagem popular brasileira. Jackson Antunes tem dois encontros com a platéia londrinense: hoje e amanhã, às 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo.
‘‘Memória de Embornal’’ é uma peça escrita por Iris Gomes da Costa, pesquisadora da cultura popular e estudiosa da prosódia. ‘‘Eu por acaso li e me interessei muito em montar’’, lembra Antunes, em entrevista à Folha2, por telefone. Em linguagem popular única, na opinião do ator, Iris Costa conta que um tal de Trajano pagou um dinheirão para que Zé Cabriolé matasse a formosa Doramina. É que a moça era noiva de Trajano, mas o coração batia por outro. Serviço acertado, Cabriolé se enrolou mesmo no momento em que se encantou pela beleza de Doramina estampada numa foto.
Antunes fala com paixão do personagem. Não é à toa. Este universo é um tanto familiar ao ator. Nascido no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, ele conta que para compor seus papéis busca muita coisa na vivência com seu povo. Um pouco do gesto de um, do jeito de falar, de andar ou olhar do outro. ‘‘Vou buscando os pedacinhos’’, diz. É assim também com os personagens da televisão, onde o ator já interpretou papéis em novelas, especiais e minisséries da Rede Globo. ‘‘Nunca fiz escola e não tenho métodos. Acredito muito na observação, a maior riqueza que a gente pode ter. E você não não paga para poder exercer isso’’, observa.
Certo de que ‘‘teria de estudar muito para interpretar um cabra da cidade’’, o ator reafirma que busca a construção de seus personagens nas suas memórias emotivas, nas coisas que viveu durante a vida no sertão. ‘‘Da minha terra eu vou ter só que atinar pra poder lembrar, voltar lá, pisar no chão descalço, conviver com as pessoas e poder buscar dados pra compor esses personagens.’’
Em ‘‘Memória de Embornal’’, o trabalho não foi diferente. Jackson Antunes revela que Zé Cabriolé leva todas as suas memórias dentro do embornal de couro que carrega consigo.
Além de uma nova parceria com o ator, esta montagem marca a estréia da cineasta Tizuka Yamasaki na direção teatral – eles já trabalharam juntos na televisão. Uma grata surpresa. ‘‘A Tizuka, diferentemente do glamour da televisão, parece uma pessoa comum, como eu. Por isso a gente se deu muito bem’’, revela. Para Antunes, a diretora deu o tom exato ao espetáculo. ‘‘O diretor de televisão acaba sendo muito ágil, a tevê exige isso. E eu me reuni com a Tizuka, a gente fez uma leitura e ela praticamente montou todo o quebra-cabeça. Ficamos mais um tempo ensaiando, pesquisando e descobrindo. Um período muito precioso.’’
A cenografia (assim como os figurinos e a direção de arte, todos assinados por Yurika Yamasaki) complementa o conjunto característico. ‘‘Nosso cenário é simples, uma cruz’’, antecipa Antunes. ‘‘Minas Gerais, pela igrejas, é um estado muito religioso, movido por um um sincretismo religioso muito forte’’, comenta. Rondando pelas estradas de terra, Jackson conta que é comum se deparar com cruzes de madeira cheias de velas e pessoas fazendo pedidos. ‘‘A nossa cruz de beira de estrada mostra no espetáculo essa coisa misteriosa que encobre os matadores, que são fervorosos crentes em Deus. A religiosidade está presente em todo o espetáculo’’, finaliza.
‘‘Memória de Embornal’’, monólogo com o ator Jackson Antunes. Hoje e amanhã, às 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo (Av. Rio de Janeiro, 113), em Londrina. Duração: 55 min. Texto: Iris Gomes da Costa. Direção: Tizuka Yamasaki. Cenografia, direção de arte e figurinos: Yurika Yamasaki. Iluminação: Jorge Luiz. Sonoplastia: Jackson Antunes. Produção executiva: Cristina Britto. Assistente/produção: Denize Gabriel. Realização: Acesso Produções. Ingressos a R$ 10,00 (estudantes, funcionários da UEL e terceira idade pagam R$ 5,00).

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