Nelson Sato
de Londrina
Os balonistas brasileiros saíram do anonimato. O livro Balão - Paixão Inexplicável, lançado pela editora Sonora, traz um mapeamento do balonismo contando a história dos sujeitos que enfrentaram a proibição da lei para se dedicar a essa atividade no País.
Seus autores, Odair Bueno e Ivo Patrocinio, são velhos praticantes do brinquedo-arte. Por isso, por serem do metiê, foram longe na pesquisa puxando nomes e mais nomes do passado para preservar a memória do balonismo. Completaram o trabalho reunindo informações técnicas, tipo ‘‘como fazer um balão’’ etc.
O cartunista Ziraldo criou a capa do livro, e o escritor Carlos Heitor Cony escreveu o prefácio. Cony, aliás, assinou um texto-exaltação: ‘‘Uma catedral gótica é um balão feito de pedra. Um balão é uma catedral gótica feita de papel e luz’’, assinala ele num trecho. O livro parece um diário de bordo da dupla de autores, com direito a troca de menções de um ao outro ao longo das páginas.
O tom é exagerado, particularmente quando repetem que ‘‘o balão é a arte popular mais criativa que temos’’, blablablá. Ao resgatarem a história do objeto da pesquisa, lembram que os balões foram introduzidos no Brasil pelos portugueses e pelos imigrantes italianos. Na época, escrevem, o costume de soltar balões tinha um sentido festivo-místico-religioso realizado como parte de um ritual de oferendas aos santos juninos Antônio, João e Pedro.
Em seguida, o costume teria passado de geração a geração até ser popularizado e folclorizado nas festas juninas. O depoimento dos autores é singelo, carregado de lembranças pessoais. Embora volumoso, o livro tem mais fotos do que texto. A iconografia é vasta e inclui desde uma litografia de 1823 com o lançamento de um balão na Itália a flagrantes de uma festa na China onde balões são lançados pela população até registros recentes clicados em festivais de balonismo no Rio de Janeiro e em Curitiba.
Nesse tópico, resgatam a figura de Gilberto Marcatti (1913-1956), que soltava a maioria de seus balões nas dependências da Casa de Detenção de São Paulo para distração dos presos. Os autores reconstituem a trajetória do balão como numa conversa de bar. Atribuem a evolução técnica da atividade aos chamados ‘‘balões de armação’’ - artefatos noturnos dotados de milhares de lanternas acesas coloridas (copos de papel de seda com pequenas velas acesas) e cujas bocas trazem varetas e barbantes especiais amarrados formando figuras luminosas no céu.
Lembram que a novidade fez os balões cresceram em tamanho e formas deixando de ser confeccionados individualmente. A partir daí, sublinham, teriam surgido as chamadas ‘‘turmas de baloeiros’’. O livro faz um levantamento abrangente desses grupos espalhados de Norte a Sul do País, focalizando as atividades desenvolvidas por cada um deles em suas respectivas regiões.
Foram os artefatos de armação, anotam eles, que despertaram de novo o interesse pelo balonismo na década de 70 depois de um período de esquecimento. Com o tempo, os balões foram ganhando decorações com motivos geométricos, desenhos, pinturas e paisagens. O Rio de Janeiro e São Paulo são os estados que, segundo eles, mais desenvolveram o balonismo tanto no âmbito artístico quando no item da segurança e das técnicas usadas em sua confecção e lançamento.
Mas o Paraná é destacado como o terceiro pólo de intensa atividade baloeira. Sem a mesma ênfase, a pesquisa dedica algumas páginas a grupos de balonistas da Espanha e da Itália. ‘‘Há quem diga que o balão é perigoso’’, observa Odair Bueno. ‘‘Sabem onde está o perigo? Eu posso afirmar de cadeira que o espetáculo é tão bonito e empolga as pessoas de tal forma, que elas tendem a fazer o mesmo, e aí falta know-how. Se tivéssemos uma escola, tudo ficaria mais fácil e seguro’’, conclui. No final, os autores incluem um glossário e uma bibliografia especializada.

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