Paixão pelos livros move o editor Samuel Leon, fomentador indicado ao Prêmio Multicultural
São Paulo, 09 (AE) - O maior perigo que Samuel Leon correu até hoje foi o da literatura. "Ler com prazer é um risco enorme", diz. O resto, a aventura que esse argentino de 46 anos viveu ao exilar-se no Brasil há 22 anos, escapando da ditadura de seu país, não foi nada. "Dependendo do ponto de vista, foi até natural". A família judia da Alemanha e da Turquia conheceu séculos de diáspora - nada mais natural do que trocar um país da América Latina por outro, casar-se no Brasil, ter duas filhas e estar prestes a ser avô. Pela primeira vez, a família de Samuel Leon vai ter duas gerações nascidas no mesmo país. O que surpreende é saber que ele não se sente, nunca, um estrangeiro: louro de olhos azuis e falando português com sotaque, ele se diz brasileiro, de coração e mente.
Bacharel em Letras que sempre viveu ligado à literatura, depois de ser rato de livraria, balconista na Cultura e diretor de coleções bem-sucedidas nas áreas da poesia ao erotismo, Samuel Leon resolveu criar uma editora. Juntou-se à historiadora Beatriz Costa, filha da dona da livraria portuguesa Gil Vicente na Rua Oscar Freire, que acabou, e ali mesmo, na pequena casa vermelha de janelas verdes, instalou há 11 anos a Iluminuras. Na época, ele tinha US$ 3 mil, o suficiente para lançar quatro livros: de Ricardo Piglia, William Blake, Marcel Schwob e Villiers de LIsle-Adam. Hoje a Iluminuras continua no mesmo lugar, mas tem 200 títulos no catálogo e publica três livros por mês. "Tudo feito à base de idéias e pulmão", ensina.
Ele não azeita o pulmão nas academias nem corre no parque - Samuel Leon lê, seu hobby, paixão e risco. A Iluminuras tem 15 ótimos livros de filosofia na coleção Pólen, dirigida por Rubens Rodrigues Torres Filho; Borges, Iberê Camargo, Laurie Anderson e William Burroughs na seção Depoimentos; Paul Valéry na crítica literária; Bartholomé de las Casas em história; Virgilio Piñera, Thomas Wolf e Paulo Leminski na literatura; muita poesia, reportagens, teatro, cinema e artes plásticas.
Não, a Iluminuras não tem livros de auto-ajuda. Sensível ao mercado, Leon sabe que hoje o brasileiro lê mais do que em 1976, quando ele chegou, mas o perfil do leitor mudou. "Na área adolescente, por exemplo, houve uma deterioração, maléfica". Mas como editor ele preserva o papel de interventor cultural e por isso aceita, exulta e sente-se recompensado com a inclusão de seu nome entre os indicados para o Prêmio Multicultural Estadão na categoria de fomentador cultural. "A Iluminuras não rasga dinheiro nem perde o mercado de vista", diz. "Mas a editora não funciona só na base comercial; sem cultura ela não anda, perde a razão de existir".
"Um editor alerta, sinaliza para as obras importantes, cativa leitores, preocupa-se com a formação de seu público - e mantém o lado comercial equilibrado: é isso o que traz saúde", observa. Este ano, a Iluminuras vai publicar textos autobiográficos de Joseph Conrad, a antologia Cristal de Paul Célan, o único texto teatral de James Joyce, um ensaio sobre Walter Benjamim.
"Continuamos uma pequena editora e isso significa manter o controle sobre todo o processo editorial até o livro chegar à gráfica - o que tem vantagens", afirma. "Como o nome da editora diz, continuamos a ser a letra capitular que dá inicio à leitura, esse jogo fascinante de construção e abismo, enquanto mil janelas se abrem para o infinito - essa é a proposta para aquele que lê".
A turbulência do real o preocupa. Leon avalia as consequências e calcula as perdas atreladas à subida do dólar - aumento dos juros, do preço do papel e dos direitos autorais de estrangeiros. Também critica a produção editorial. "Há mais títulos no mercado do que o brasileiro pode consumir". Analisa perdas e ganhos, projeta graças e infortúnios, mas não se lamenta nem cancela títulos. "Só me recuso a ver sempre o lado bom das coisas porque, como José Saramago, sei que os otimistas em excesso geralmente não constroem nada". (N.C.)





