Paixão pela viola
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terça-feira, 14 de outubro de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Deus é caprichoso e num dos seus caprichos pôs alma na viola, instrumento sensível que chora ao ser tocado. Território insondável para a grande maioria, que até o diabo quer comprar para perder os homens, que não conseguem resistir aos seus apelos tão femininos.
Somente violeiros como o londrinense Simonides Dias - uma referência nacional no assunto - sabem desvendar os segredos da viola, instrumento com corpo e alma de mulher. ''A viola tem alma. A minha não dá para ver. É um pedaço de madeira colocado dentro do instrumento para evitar a reverberação do som. Uma das minhas violas me acompanha há 20 anos'', conta Dias.
Dono dos acordes mais conhecidos em todo o Brasil, Dias é solicitado para gravações de importantes duplas caipiras, sendo um dos poucos que sabem revelar a alma sertaneja da instrumento, que no dizer do londrinense, quando chora é capaz de fazer a lua brilhar no céu e a mata ficar prateada em pleno coração da cidade.
Ex-cinegrafista de TV, que hoje ainda presta serviços cinematográficos, dono também de um estúdio de gravações, Dias participou da gravação do DVD antológico ''100% Caipira'', na casa de shows paulistana Olympia, reunindo grandes duplas brasileiras da música de raiz.
Um show em que dividiu o palco com Trio Parada Dura; Abel & Caim; Liu & Léo; Zico & Zeca; Goiano & Paraense; Teodoro & Sampaio; Nalva Aguiar, entre outros. ''É um show que nunca mais será possível acontecer porque alguns desses ícones da música de raiz já morreram'', comenta o violeiro.
Dias viveu uma paixão platônica pela viola na juventude - ele chegou a ir para São Paulo tentar a vida com ela - conseguindo somente na maturidade realizar esse amor, tendo-a como companheira aos quarenta e poucos anos. ''Foi uma época difícil em que não consegui furar a panela que existia no mercado. Um período em que a música caipira incorporou outros instrumentos e não tinha mais campo para a viola. Pensei: 'o que eu vou continuar fazendo aqui em São Paulo'. Voltei para Londrina, onde comecei a trabalhar como cinegrafista'', lembra o violeiro.
Filho e neto de violeiros, Dias diz que a viola é uma mulher que declara o seu amor por músicos pelos quais se apaixona. O avô dele foi um desses homens, que não era de muita conversa, mas deixava o instrumento falar em seu lugar. ''Dizem que violeiro é bom de conversa, contador de causos. Conheço violeiro que não tem boca para nada. A viola fala tudo em seu lugar. O meu avô tinha um sentimento para tocar impressionante'', completa.
Para Dias, os bons violeiros amam e são amados pela viola e querem exibir a todos, os encantos do instrumento de alma feminina. Ele classifica dois tipos de músicos: os que põem o braço em volta da cintura da viola para mostrar as raízes caipiras e os que querem se aproveitar dela comercialmente. ''Hoje, a viola divide espaço com arranjos carregados de percussão, guitarra, entre outros instrumentos. Em gravações, eu tenho que me adequar a esse tipo de música. Não existe mais limite dentro do estúdio. Preciso conhecer o desejo das duplas ou bandas, mas não abandono a viola que aprendi a gostar lá trás. Me sinto na obrigação de manter viva a viola caipira'', afirma Dias.
A devoção à viola é correspondida pela fidelidade do instrumento que, apesar da personalidade forte somente entrega nas mãos de quem a trata com carinho todas as suas inúmeras possibilidades de execução e afinação. Ao contrário das histórias de pactos entre violeiros e o diabo, Dias prefere acreditar na inveja daquele que quer ser como Deus, inventando mais essa mentira, querendo ser o criador da viola, o instrumento que também poderia ter nascido de uma costela de Adão.


