Caio Blat é o tipo de ator que faz qualquer coisa por um bom personagem. Sem receios, o ator já protagonizou cenas fortes de nudez e violência em filmes como ''Cama de Gato'', de 2002, mergulhou em pesquisas sobre catolicismo para o longa ''Batismo de Sangue'', de 2006, até aprendeu a se maquiar para dar vida ao androgéno Abelardo, da novela ''Da Cor do Pecado'', de 2004. ''Quando tenho um papel interessante nas mãos, confio no diretor e entro de cabeça na história. Não pode ter julgamento'', ensina.
É por isso que o ator se mostra bem à vontade para dar vida ao apaixonado Leandro de ''Morde & Assopra'', da Globo. Com claras inspirações em clássicos da ficção científica, como ''O Homem Bicentenário'', de Isaac Asimov e Robert Silverberg, na trama de Walcyr Carrasco, Leandro está envolvido em um inusitado quadrilátero amoroso formado por Naomi e sua versão robô, interpretadas por Flávia Alessandra, e Ícaro, de Mateus Solano. ''A função do Leandro na trama é mostrar que é possível um homem se apaixonar por uma máquina'', revela.
Para o ator, o trabalho na atual novela das sete é uma boa forma de comemorar seus 20 anos à frente das câmaras - a estreia foi no seriado educativo da TV Cultura ''Mundo da Lua'', de 1991. ''Com a maturidade, a responsabilidade de fazer um bom trabalho é muito maior'', ressalta.
No ano passado, a novela ''Tempos Modernos'' não emplacou no ibope por causa de sua história com ares futuristas. Em ''Morde & Assopra'', seu personagem é apaixonado por uma andróide. É difícil trabalhar com este tipo de trama na televisão?
A proposta é legal e inovadora. Adorei essa coisa de entrar no universo fantástico. É algo que o cinema explora muito bem e pouco vemos na tevê brasileira. Acho interessante a novela se aventurar por histórias diferentes, e isso só acrescenta. É um núcleo muito importante para a trama, parece história em quadrinhos ou algum filme do Tim Burton, como ''Edward Mãos de Tesoura''. É algo inserido nesse universo.
Você foi atrás de alguma inspiração específica para construir este personagem?
Li algumas coisas e assisti a filmes. A história do boneco ou robô que quer se tornar humano é bem recorrente na literatura, desde ''As Aventuras de Pinóquio''. No caso da novela, temos uma andróide que está passando por uma fase de descobertas, que quer ser uma pessoa de verdade. Falta alguma coisa para a Naomi virar humana, e meu personagem entra para representar essa sutileza dos sentimentos da robô. Ele se apaixona por ela, para exatamente defender essa ideia de que as máquinas muito evoluídas, muito sofisticadas, acabam tendo também reações e sentimentos. Em última instância, poderíamos dizer que essas máquinas têm alma, pois sentem. A trama quer abordar esses questionamentos.
Novelas das sete são geralmente dominadas pela comédia. É difícil lidar com um tema tão filosófico no horário?
Além dos risos, o horário precisa de romantismo e meu núcleo é cheio disso. A novela tem um forte apelo filosófico com os questionamentos da relação entre a Naomi andróide, a verdadeira Naomi, o Ícaro e o Leandro. Todos esses personagens estão se perguntando quem eles são, quais as razões de eles estarem naquele lugar. São perguntas que todo mundo se faz. Mas uma trama fantástica pode tornar esses questionamentos ainda mais destacados.
A novela passou por problemas de audiência e os robôs foram responsabilizados pelo baixos números no Ibope, o que levou o autor a fazer algumas modificações. Você se incomoda com essas alterações em função da audiência?
Essas mudanças são bem comuns, acontecem em todas as novelas. Mas meu personagem não foi afetado pelas modificações da trama. Pelo contrário, ele é bastante fiel ao desenho inicial, que é o amor dele pela andróide. O que o Walcyr Carrasco me disse é que, com as várias modificações que a novela iria ter, principalmente com as personagens da Flávia Alessandra, ele iria preservar o Leandro sempre em função desse amor, que era o que mais interessava a ele no personagem.
A última vez que você trabalhou em um folhetim escrito por Walcyr Carrasco foi em ''Fascinação'', do SBT, em 1998. Como foi esse reencontro com o autor?
O convite surgiu através do Rogério Gomes, que é um diretor com quem eu já trabalhei várias vezes, como em ''Sinhá Moça'' e ''Coração de Estudante''. Gosto do acabamento que ele imprime aos projetos que dirige. Fiquei amigo do Walcyr na época do SBT. Quando o Rogério indicou meu nome para o personagem, o Walcyr topou na hora. A história com o autor ultrapassa os limites da televisão. No teatro, dirigi uma peça dele chamada ''Êxtase'', em 2002.
Este ano você completa 20 anos de carreira na televisão, mas está fazendo cada vez mais cinema e teatro. A tevê tem uma importância menor para você atualmente?
Tenho outro foco, mas a tevê ainda é muito importante para mim. Foi onde fiz o meu nome. Diferente de muitos atores que começam no teatro, eu aprendi a atuar na televisão. Fazendo programas educativos na TV Cultura, depois novelas no SBT. Tudo que eu sei, devo aos folhetins. Foi onde aprendi a interpretar. Adoro novelas, apesar que manter um personagem e uma história por tantos meses é algo muito complicado. Depois de um tempo, é que os atores que eu conheci na televisão foram me levando para o teatro e cinema.
Essa busca por trabalhos em outros veículos é uma forma de diversificar a carreira e fugir da limitação de personagens da tevê?
Eu adoro fazer televisão, mas acho que o teatro me dá a oportunidade de realizar um trabalho mais profundo muito. De pesquisar, me envolver e depurar o texto por mais tempo. Além de ser possível elaborar o personagem de forma especial, ainda tem a questão de interpretar ao vivo, diante do público, isso muda tudo. Uma coisa é você poder errar, voltar e fazer de novo. Outra coisa é você fazer o espetáculo diante de uma plateia todas as noites. Isso mantém a arte do ator viva.
Você já recusou algum personagem na televisão por querer dar outro direcionamento para sua carreira?
Nos últimos anos tenho dividido muito mais a agenda. Tenho fixado como prioridade os projetos importantes do cinema, e tentando fazer novela junto. No meu último folhetim, ''Caminho das Índias'', de 2009, eu consegui filmar ''O Bem Amado'' e ''As Melhores Coisas do Mundo''. Conciliar é o ideal, evita a sensação de que estou perdendo bons projetos.
Em 10 anos você participou de 16 longa-metragens. O que o cinema tem mais interessante do que a televisão?
Nunca vou deixar de fazer tevê, mas tenho dado prioridade ao cinema por conta do momento privilegiado que a sétima arte está vivendo no Brasil. Fazer cinema é muito prazeroso para o ator, a gente tem a sensação de que está construindo um registro. Na televisão, o capítulo passa e no dia seguinte já vem outro. Já um filme consegue se manter, de certa forma, como o registro de uma época. Fico orgulhoso de pensar que toda a história dos anos 2000 está sendo contada e registrada, e isso esta sendo feito com a cara dos atores dessa geração.
''Morde & Assopra'' - Globo - Segunda a sábado, às 19h10.

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