Paixão e vingança com grupo Satyros
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de dezembro de 1998
Elisa Marilia Carneiro 
O mito Medea, que inspirou de Eurípedes, Heiner Muller a Chico Buarque, é a nova peça da Companhia de Teatro Os Satyros, dirigida por Rodolfo Garcia Vázquez. A estréia, que acontece hoje, às 21 horas, no Guairinha, é a terceira parte da trilogia Grécia Virtual, que teve início com Prometeu Agrilhoado (96) e Electra (97).
Medea é uma princesa da Cólquida, possuidora de poderes mágicos, que se apaixona pelo jovem Jasão, um dos Argonautas, que viajara ao seu país em missão. Devido à sua paixão avassaladora, Medea segue o amado e foge da sua pátria abandonando tudo o que a sua condição lhe proporcionava.
Nessa fuga, para evitar a perseguição do pai, Medea acaba por assassinar o próprio irmão, espalhando o seus pedaços pelo mar, para que o pai, destruído, tivesse de recolher os seus despojos e assim, desistir da perseguição.
O casal foge então para Corinto, onde têm filhos e acabam vivendo como estrangeiros. No entanto, Jasão, homem ambicioso, acaba por abandonar a mulher, com o intuito de se casar com a filha de Creonte, rei de Corinto. Traída e abandonada, Medea prepara uma vingança terrível, conhecida como a mais cruel vingança já descrita pela Dramaturgia Universal.
Os textos clássicos de Eurípedes e Sêneca iniciam no momento, em que Medea se vê abandonada, com filhos, só, numa terra estrangeira. A descrição do sentimento de revolta e ódio que levam à vingança terrível são desenvolvidos de forma brilhante por esses autores clássicos, posteriormente retomada por outros grandes autores durante gerações e gerações, entre os quais podemos destacar o recente Medeamaterial, de Heiner Muller e a adaptação livre de Chico Buarque e Paulo Pontes, em Gota DÁgua.
O domínio de Medea face ao universo do homem é o ponto inicial desta montagem. A ênfase é a poesia, de Eurípedes e de Sêneca e a força terrível da paixão que move os personagens. Neste espetáculo a paixão de Medea e seu descalabro não fazem parte de um universo exclusivamente feminino.
O seu desmedido amor e a terrível vingança que lhe custará a vida dos que mais ama, diz respeito a todos nós na busca desesperada que empreendemos atrás das nossas paixões mais incontroláveis. A trilha sonora é recriada ao vivo pelos próprios atores.
A montagem foi desenvolvida como um processo a partir dos textos desses autores, da discussão da questão da mulher na sociedade contemporânea e das experiências pessoais dos próprios atores do espetáculo. Os depoimentos pessoais identificando a Medea em cada um, possibilitou uma remontagem rica e contemporêna, conta o diretor. A partir dessas discussão, o texto final do espetáculo foi redigido por Ivan Cabral e Ana Fabrício, numa tentativa de reaproximar o tema do universo contemporâneo.


