Exercendo o cargo de diretora da União Internacional de la Marionnette, Magda Modesto – maior especialista do País desta arte – está em Curitiba assistindo ao maior número de espetáculos possível. Entre os internacionais que ajudou a selecionar, Magda destaca com entusiasmo a companhia Stuffed Puppet Theatre, do ator Neville Tranter.
‘‘Ele é fantástico, completo. Além de grande ator, Neville capricha na montagem e elabora um texto sublime’’, reconhece. Magda avalia o texto do espetáculo ‘‘MoliSre’’ como ‘‘quase shakespeariano’’. ‘‘Ele usa exatamente a linguagem dos títeres ou do absurdo. Tem um despojamento fantástico em cena, quando pendura os bonecos, utilizando uma linguagem de afastamento e dando tempo para reflexão.’’
Além de Neville Tranter, Magda reconhece o trabalho dos italianos da companhia Salvatore Gatto. ‘‘Gatto é o grande Pulcinella. Seu trabalho é fantástico e exprime tudo o que um títere tem de mais sublime e verdadeiro.’’
Madga Modesto prestou uma consultoria ao Teatro Guaíra para a seleção dos espetáculos internacionais e nacionais do Festival Espetacular de Teatro de Bonecos deste ano. ‘‘Tenho uma doença incurável, que é o amor pelo Teatro de Títeres’’, afirma numa perfeita auto-definição daquela que é certamente a maior autoridade em Teatro de Bonecos – ou de Títeres, como a própria Magda prefere dizer – no Brasil. ‘‘Títere é todo e qualquer personagem que ganha vida num espetáculo, enquanto boneco é um termo que se refere mais em função do material do qual ele é feito’’, faz questão de esclarecer.
A vida de Magda Modesto está intimamente ligada a esta arte. Além de ensinar e pesquisar o Teatro de Bonecos, Magda dirige e faz adereços para grupos de títeres do Rio de Janeiro.
A paixão pelos bonecos começou quando Magda ainda era pequena. Na década de 30, seus pais a levaram para ver uma peça de Teatro de Bonecos e ela se encantou com a linguagem apresentada no espetáculo. Em casa, fazia bonecos com a massa retirada do miolo do pão.
O interesse foi crescendo, ela passou a acompanhar mais peças e ser presenteada com bonecos. O resultado desta paixão e dos presentes é uma coleção que hoje conta com 350 peças e vários países. ‘‘É um acervo de bonecos de expressão popular, com mamulengos e calungas, entre outros. Fui adquirindo bonecos ao longo dos anos, mas nunca comprei de quem atua, para não tirar a ferramenta de trabalho dos artistas’’, conta.
Seu acervo particular e seu conhecimento fizeram com que Magda fosse convidada para montar exposicões em países como Estados Unidos, França, Portugal, Espanha e Índia, com seus próprios bonecos ou fazendo curadoria para coleções de outros artistas. Também atua constantemente como jurada e presta consultoria para festivais.
Ela já montou exposições para duas edições da programação paralela do Festival Espetacular de Teatro de Bonecos, o maior evento do País em Teatro de Bonecos. ‘‘Aprecio peças com grande força expressiva, por isso procuro mostrar, nas exposições das quais participo, bonecos em atitude cênica, sugerindo movimento,’’ explica.
Fascinada com seu trabalho, Magda vê no Teatro de Títeres a possibilidade do espectador tornar-se co-autor do espetáculo. ‘‘A partir do momento em que o público acredita que a peça e os títeres têm vida própria, ele também passa a ser o criador. A alma do boneco está em que assiste’’, comenta
O teatro de bonecos produzido no Brasil está entre os mais criativos do mundo, tendo como uma de suas características principais o imaginário popular. Segundo Magda, são fortes as heranças temáticas dos europeus, índios e africanos. ‘‘O teatro contemporâneo de títeres no Brasil tem muitas correntes, apresenta conteúdo de expressão popular, o erudito é elevado a níveis de alta pesquisa, a influência geográfica e cultural é marcante e os materiais são feitos em função do perfil dos personagens.’’
‘‘O Festival produzido pelo Guaíra reflete o ecletismo do Brasil e pode ser comparado com o realizado em Nova York e em Charleville-MeziSres (França). Nesses três eventos a intenção é atender ao público de uma forma bem ampla. O Festival da capital paranaense tem um grande potencial. É o maior do País e conta com grande prestígio por parte do público curitibano’’, explica Magda. (E.M.C.)

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