Paixão de Cristo se transforma um ato político
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quinta-feira, 05 de abril de 2007
Antonio Gonçalves Filho<br> Agência Estado 
São Paulo - Há dois anos o ator e diretor Mel Gibson provocou polêmica com seu filme ''A Paixão de Cristo'', que deixou a comunidade judaica particularmente irritada com o retrato antipático de religiosos judeus negociando com romanos pagãos a prisão e crucificação de Jesus. Enquanto os cristãos mais exaltados recebiam o filme com entusiasmo, vendo no banho de sangue de Gibson um projeto de evangelização para o mundo laico, os cristãos moderados, conformados com a acusação de que fomos todos nós os responsáveis pela morte de Jesus, irritaram-se com a interpretação algo distorcida da paixão de Cristo pelo ex-Mad Max.
Foi assim que uma dupla de acadêmicos, um de origem luterana e outro católico, decidiu escrever como resposta ''A Última Semana'' (Editora Nova Fronteira, 256 págs., R$ 29,90), justamente dedicado aos derradeiros dias do Messias, do Domingo de Ramos à Páscoa.
Os americanos Marcus J. Borg, descendente de luteranos escandinavos, e John Dominic Grossan, ambos professores de Religião, concluíram o livro em setembro de 2005, às margens do rio Ressurrection (Ressurreição), no Alasca, considerando o nome do lugar mais que uma coincidência. Sem consulta mútua, cada um escreveu sua interpretação da última semana de Cristo, adotando o evangelho de Marcos.
Unificaram os dois ensaios na edição final e tornaram o texto definitivo tão amalgamado que fica difícil saber onde começa Marcus e terminam os dois Joãos (o acadêmico e o evangelista). A considerar a conclusão da dupla, Jesus foi um radical que morreu na cruz não para redimir nossos pecados, mas para servir de modelo de combate ao mal. E o mal, no caso, tanto pode ser o antigo Império Romano como qualquer governo que oprima um povo por meio da política ou da exploração econômica.
A dupla não transforma Jesus num guerrilheiro como Che Guevara, mas provoca incômodo ao rejeitar o argumento mais aceito sobre as razões do sacrifício de Jesus, a de que ele morreu pelos pecados do mundo. Já que seria inadequado uma pessoa comum ser sacrificada em nome de todos, porque estaria morrendo apenas pelos próprios pecados, o ungido deveria ser um ser perfeito, imaculado, o filho de Deus. Essa, pelo menos, era a tese de santo Anselmo, o arcebispo de Cantuária, em 1097.


