Paixão ardente
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de novembro de 1996
Ana Cristina Ioselli 
Todas as vezes que entra nos estúdios da Manchete, Carla Regina é tomada por um desejo ardente. Nada de interpretar. Na pele da doce e apaixonada Das Dores, personagem da novela Xica da Silva, ela tem de mostrar, de forma sincera, que sente um amor febril por Martim, vivido por Murilo Rosa. A recomendação, seguida à risca, é do diretor artístico da Manchete, Walter Avancini, a quem ela chama de mestre. Ao perceber a popularidade de Carla, dá para entender os excessivos elogios que dispensa ao diretor.
Aos 20 anos de idade, ela emplaca seu primeiro sucesso na tevê, numa versão nacional de Julieta, e aguça a curiosidade do público. Afinal, quem é esta morena bonita com 1,67 m e apenas 51 quilos e que, apesar de jovem, consegue dar conta do recado?
Carla nasceu em Limeira, interior de São Paulo, e foi morar no Rio com apenas 15 dias de vida. Filha única, sempre encontrou carinho em casa, mas garante que nunca foi mimada. Tive infância. Brincava na rua, no playground, na praia. Me diverti, lembra. Carla começou a aprontar cedo. Muito cedo. Com apenas dois anos, conseguiu, depois de muito sacolejar, virar com carrinho de bebê e tudo. Conclusão: abriu um buraco na testa, levou cinco pontos e conquistou uma cicatriz o único deslize em seu rosto quase perfeito. Garante que parou por aí.
Graciosa desde pequena, sempre ouvia de parentes, amigos e vizinhos, que devia ser modelo. A mãe, orgulhosa, não titubeou. Inscreveu a menina numa agência de modelos e garantiu uma poupança para seu pequeno tesouro. Hoje, para sua felicidade, é confundida na rua com a própria estrela do lar. Até para minha mãe já pediram autógrafo, achando que era eu, diverte-se Carla.
Logo, Carla se interessou pela profissão de atriz. Entrou para a Oficina de Atores da Globo e não se saiu mal. Interpretou a pouco expressiva Jane, em Malhação, e fez uma participação de quatro capítulos em Quatro por Quatro, como Jussara, namorada do Ralado, de Marcelo Faria. Foi nesta época que recebeu o convite de Walter Avancini para integrar o elenco de Tocaia Grande. Acho que foi porque fui dirigida por Alexandre Avancini, filho do Walter, em Quatro por Quatro, desconfia.
No papel da retirante Diva, de Tocaia Grande, Carla ganhou a simpatia de Avancini, que logo a convidou para um papel especial em Xica. Avancini tem xodó por Das Dores. Por isso, não se furta a acompanhar passo a passo o desenvolvimento da atriz Carla Regina, que para se caracterizar chegou a pintar os cabelos e atualmente usa filtro solar fator 35 para manter a pele branca. Toda vez que gravo no estúdio, o Avancini pede para eu passar na sala dele, diz, sem pudor, e até com um certo orgulho.
Broncas Os elogios são contados. Já as advertências... Avancini pega no pé de Carla, principalmente em relação ao tom. Ele fala baixinho comigo e pergunta se eu não estou escutando, conta Carla, reproduzindo o jeitão típico de Avancini.
Em vez de ficar chateada com as broncas, ela aceita de bom grado. Carla lembra que na fase em que sua personagem rejeitou o noivo escolhido pelo pai, ela usou um tom debochado que o diretor não gostou. Ele pediu para eu ser sincera. Segui o conselho e realmente ficou bem melhor, admite, com olhos quase hipnotizados de admiração por quem acostumou-se a chamar de mestre.
Os olhos de Carla só brilham tanto quando fala de Murilo Rosa, seu partner na novela Xica da Silva. Os dois se conheceram pouco antes de a novela começar e a afinidade foi imediata. O par romântico tem de ter empatia desde o começo, senão não dá certo, dá a receita a moça, que no momento está sem namorado.
Depois de interpretar algumas boas moças na tevê, Carla aproveita o sucesso sonhando com o dia em que vai ter a oportunidade de mostrar suas habilidades maléficas diante de uma câmera. Gosto do jeito debochado da Débora Bloch, como a Teodora de Salsa & Merengue, aponta, citando também o trabalho de Drica Moraes em Xica.
Mão cheia Brincadeiras, cantoria e bom humor formam o clima dos bastidores da novela Xica da Silva. Entre os mais engraçados, Carla Regina não pensa duas vezes antes de citar Eduardo Dusek, o Capitão Gonçalo, pai de Das Dores na trama.
Duro é conseguir concentração quando Carla tem de gravar ao lado do pai fictício. Muitas vezes, é preciso respirar fundo e se segurar para não cair na gargalhada.
Enquanto fala de Dusek, cantarola uma música recheada de ironia, criada pelo cantor/ator em homenagem - ou escárnio - às perucas desgrenhadas, fedorentas, etc. que tanto incomodam os atores.
Mas nem sempre há espaço para o riso. Dia desses, Dusek imbui-se tanto do espírito perverso de Gonçalo que acertou um tabefe e tanto no rosto de Carla. Coitadinho, depois ele ficou preocupado comigo, diz, ainda com pena.
Prova de fogo Gravar uma dúzia de cenas metida num caixão foi só o começo de uma sequência de acontecimentos nada confortáveis. Na pele da sofrida Das Dores, Carla Regina sabe que ainda terá de passar por maus momentos no set de gravação de Xica da Silva.
Escondidos numa tapera no meio do mato, Das Dores e Martim por enquanto, vivem um período de trégua. Mas não por muito tempo. Em breve, os dois serão descobertos por Jacobino, vivido por Altair Lima, e verão o inferno recomeçar. Martim conseguirá fugir. Já Das Dores não só será presa, como acusada de bruxaria, já que conseguiu recuperar a vida, mesmo depois de ter sido enterrada.
Tal qual Joana DArc, seu destino é a fogueira. Mas, na hora em que é amarrada, mostra a suposta barriga - na verdade, um melão arranjado por Xica, personagem de Taís Araújo - e consegue uma sobrevida, apenas até o inocente bebê nascer. Nossa, ainda tem muita coisa para acontecer, suspira Carla, enquanto adianta a trajetória da personagem.
Presa, Das Dores sofrerá maustratos de uma freira maquiavélica, que deveria ser interpretada por Bernardete Lyz, mas permanece sem atriz definida depois que ela declinou do convite. Em resumo, Carla já está preparando seu estoque de lágrimas.


