Pais, filhos, filmes: modo de usar
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de setembro de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Quando o crítico de cinema e escritor canadense David Gilmour (homônimo do legendário guitarrista do Pink Floyd) permite que seu filho de 15 anos abandone a escola secundária por causa da apatia e notas baixas, ele toma uma atitude arriscada. E o desafio será maior ainda porque o adolescente Jesse poderá acordar à hora que quiser e não ter qualquer trabalho. Mas este regime de liberdade somente terá vigência sob duas condições inegociáveis: (1) nenhuma experiência com drogas e (2) uma rígida dieta cinematográfica de três filmes por semana, com títulos segundo eleição paterna.
''O Clube do Filme'' (Editora Intrínseca, 240 pág., R$ 24,90) é o relato emocionante de uma temerária experiência afetiva e sociocultural, baseada na intuição que um pai tem de seu próprio filho. O livro, em linhas gerais, é sobre seres humanos problemáticos e filmes nem tanto, e o modo como as imagens, no escuro de uma sala de cinema ou na penumbra de uma sala de estar, acabam iluminando nossas vidas. A narrativa, ambientada vagamente no final do século passado e início deste, é uma espécie de comédia agridoce, ou tragicomédia, a escolher. Tem humor e emoção entrelaçados pela inteligência.
É como se de repente o leitor, num passe de mágica, se tornasse espectador. Ali, diante de uma tela de páginas, ele passa a testemunhar a mais íntima love story paterno-filial. A cada semana desfilam clássicos imortais, filmes de culto e títulos malditos, projetados como se fossem lições teóricas para ilustrar a prática, a ''filmagem'' da vida dos Gilmour. Tudo serve, tudo funciona. Imagens sublimes de arte /ensaio/cult e filmes ruins e duvidosos se fundem para ilustrar algum aspecto doméstico ou transcendental - cerca de 100 realizações são enumeradas ao final da edição brasileira.
''Apocalypse Now'', ''Showgirls'', ''Cidadão Kane'', ''Nikita'', ''O Poderoso Chefão'', ''Instinto Selvagem'', ''Sindicato de Ladrões'', ''Noivo Neurótico, Noiva Nervosa'', ''O Ultimo Tango em Paris'', ''Matar ou Morrer''. Sem tapete vermelho, largados sobre um sofá e sem cronograma rígido, um pai desempregado e um filho sem horizontes buscam a cumplicidade para encontrar sentido em suas vidas. Elemento obrigatório e permanente nesta cineterapia, e essencial mesmo neste processo de educação sentimental, são os afetos especiais.
''O Clube do Filme'' não se satisfaz em ''filmar'' pequenos home movies dentro de uma casa em Toronto, mixando este material com inesquecíveis obras-primas do cinema mundial em todos os tempos. No relato abre-se também espaço generoso para sequências exteriores ao vivo muito à moda neo-realista ou da nouvelle vague, como as desventuras de Gilmour senior (desemprego, lembranças amargas de amores passados) e as penúrias sentimentais de Gilmour junior nas garras adolescentes mas decididamente fatais das garotas Rebecca e Chloe.
É bom estar atento porque várias promessas são descumpridas ao longo desta caminhada. Jesse flerta com a cocaína, e David começa a duvidar de seu método educativo pouco ortodoxo. Neste sentido, ''O Clube do Filme'' fascinará vanguardistas e escandalizará conservadores, seguros de que para superar as variações humorais do garoto deva prevalecer mão forte em vez de regalias. O leitor, ao se aproximar o final do livro, nunca se sentirá totalmente seguro sobre qual foi de fato o resultado deste experimento tão invulgar.
Mas de qualquer maneira ao longo do texto há lições importantes a aprender com este progenitor inquieto, seu rebento confuso e a experiência inédita. Como a estratégia de David, que vai pedindo a Jesse que preste atenção em determinadas cenas, em certos silêncios, em movimentos de mãos e expressões no olhar dos atores. Ao mesmo tempo, o pai aprende a conhecer as inquietudes do filho manifestadas em reações diversas. A falar com ele, a se aproximar de fato de suas contradições de adolescente. Neste sentido, o cinema se impõe com sua marca de influência decisiva, não apenas quanto ao aspecto artístico, mas como intérprete vivo e essencial de nossa história recente e do mundo em que vivemos.
Se alguém estiver pensando em ''O Clube do Filme'' como exemplar de auto-ajuda ou qualquer dessas leituras de fórmula pronta, esqueça. Não se trata nem de longe de buscar aqui um guia para recuperar adolescentes desgarrados, mas de propor, com inequívoca transparência, a necessária reflexão sobre uma realidade inquestionável: a de que a transmissão das coisas da vida não depende somente de um boletim de notas, mas de um entendimento bem mais universal e arejado do que o quintal de uma escola, por mais atraente que ele seja.


