ReproduçãoPagu: musa do modernismo escrevia contos policiais sob encomendaDe Patrícia Galvão, ou Pagu, já se conheciam muitas facetas: de militante de esquerda a musa do Modernismo. Agora, a publicação de ‘‘Safra Macabra’’ (Editora José Olympio/242 páginas/R$ 23) revela mais uma característica da personalidade desta irrequieta intelectual brasileira: a de autora de contos policiais. Publicados nos anos 40 nas páginas da revista ‘‘Detective’’, os nove contos reunidos em ‘‘Safra Macabra’’ foram assinados sob o pseudônimo de King Shelter. ‘‘O pseudônimo foi criado porque a revista só publicava autores estrangeiros e o gênero policial era considerado de segunda classe no Brasil’’, justifica Geraldo Galvão Ferraz, filho de Pagu.
A revista ‘‘Detective’’ - uma publicação mensal do Diários Associados, de Assis Chateaubriand - foi um dos mais bem-sucedidos exemplos de pulp fiction no Brasil. Nos anos 40, a onda das revistas impressas em papel barato e recheadas com histórias de suspense e mistério abarrotavam as bancas de jornal de todo o país. Era a época de ‘‘X-9’’, ‘‘Meia-Noite’’, ‘‘Emoção’’, ‘‘Mistério Magazine’’ e, principalmente, ‘‘Detective’’. Em poucas edições, o intrépido detetive Cassira A. Ducrot, criado por Pagu, se transformou na principal atração da revista, deixando para trás nomes como Hercule Poirot e Inspetor Maigret, criados pelos já conhecidos Agatha Christie e George Simenon.
Com chapéu de abas largas e echarpe amarrotada, o boêmio Cassira Ducrot é definido pela própria autora como o mais completo Sherlock Holmes da Sureté, a tradicional polícia francesa. A escritora Patrícia Galvão chega a utilizar uma técnica rara entre os autores policiais da época: o narrador King Shelter interage nas histórias e contracena com Cassira. Em ‘‘O Dinheiro dos Mutilados’’, por exemplo, o detetive é descrito pelo próprio narrador como um sujeito calmo e equilibrado que não hesita em recorrer ao seu indefectível cassetete quando a situação aperta. Em várias ocasiões, Cassira deixa a lógica e a astúcia de lado e parte para a agressão.
Os contos de ‘‘Safra Macabra’’ seguem uma ordem cronológica. Títulos como ‘‘Morte no Variet钒 e ‘‘O Mistério da Máscara de Sangue’’, entre outros, reforçam o clima noir das histórias. Em ‘‘A Peste Azul’’, Pagu apresenta muitos dos elementos utilizados em outras narrativas, como uma pitada de cultura exótica misturada a um toque de realismo fantástico. No conto, um náufrago pertencente a uma tribo desconhecida dos Mares do Sul dissemina uma doença letal entre os passageiros de um luxuoso navio. Mais adiante, ‘‘A Esmeralda Azul do Gato do Tibet’’ conta a história de uma misteriosa esmeralda vinda da Índia que provoca estranhos acidentes em um castelo de uma jovem herdeira no interior da França.
Não é à toa que as histórias de ‘‘Safra Macabra’’ são ambientadas na França. Foi lá que a escritora viveu nos anos 30, frequentando o grand monde de Paris e entrevistando gente como Sigmund Freud e André Breton para o jornal carioca Diário de Notícias. Os contos de King Shelter têm muito do refinamento intelectual de Pagu. Há várias passagens em que referências intelectuais e preferências pessoais se entrecruzam. Em ‘‘O Dinheiro dos Mutilados’’, Pagu cria o poeta suicida Paul Crevel em homenagem ao gênio surrealista René Crevel. Já em ‘‘As Noivas da Morte’’, Pagu insinua alguns de seus gostos pessoais, como gim com laranja e louvores à importância do banho quente como lugar para pensar.
A incursão de Pagu pela literatura policial, no entanto, foi breve. Os nove contos reunidos em ‘‘Safra Macabra’’ foram escritos de junho a dezembro de 1944. Na época, ela vivia no Rio e entregava as histórias por encomenda. As sequelas das torturas em sua prisão em 1935, depois da Intentona Comunista, pesaram na decisão de parar de escrever narrativas policiais. Patrícia Galvão se deprimia com frequência e sofreu com o alcoolismo. Em 1949, chegou a tentar o suicídio. Mesmo assim, ainda teve fôlego para criar, em 1956, uma das primeiras colunas de tevê do país no jornal A Tribuna, de Santos. Seu último texto, o poema Nothing, foi publicado neste mesmo jornal em 1962, ano de sua morte.

mockup