Páginas da Vida chega ao fim em busca de audiência
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de março de 2007
Patrícia Villalba<br> Agência Estado 
''Páginas da Vida'' termina hoje, morna como começou, apesar da média de três barracos que tem exibido por dia na tentativa clara e desesperada de obter pontos a mais no Ibope, nesta reta final. Ao ver como o autor Manoel Carlos parece ter-se perdido na quantidade imensa de personagens (a maioria sentada à mesa de jantar do patriarca Aristides, vivido por Tarcísio Meira), nas queixas de um elenco que se mostra insatisfeito por meio da imprensa (uns, em seus blogs) e nas tramas, que terminaram mal amarradas, o mais atento noveleiro poderia agora questionar, mais uma vez, o modelo do folhetim eletrônico.
Mas, em vez disso, a novela das 9 apresenta seus capítulos finais em meio à discussão em torno da portaria 264, pela qual o Ministério da Justiça quer coibir abusos na programação e chamar as redes à responsabilidade pelo que exibem.
''Páginas da Vida'' é prato cheio nesse contexto, como também ''Vidas Opostas'', da Record; a diferença é quanto mais audiência, mais responsabilidade. É uma novela que joga pesado, mostrando pequenas transgressões como atos triviais, grandes transgressões como justificativa de humilhação, desrespeito e até tortura.
O genro ladrão não é denunciado pelo sogro à polícia, mas leva um tiro da mulher. E, com o pé machucado, é atendido num hospital, longe das vistas das autoridades, com a ajuda da ex-mulher, médica e heroína da trama, que burla sem dor na consciência o regulamento do seu trabalho. Claro, pode-se argumentar que diariamente pessoas burlam regras do trabalho, e a novela só estaria espelhando a realidade. Mas por que expor nossas crianças a isso?
Por que uma das primeiras referências a sexo deve ser a imagem de Daniele Winits extorquindo favores de um sujeito babão em troca de uns banhos de banheira? A questão não é o sexo, mas como mostrá-lo. A primeira mensagem é: use o corpo e se dará bem A segunda: use o corpo, se dê bem por um tempo e corra o risco de levar um tiro da mulher de seu amante. Ambas são desastrosas.
Neurose é matéria-prima para a ficção, mas nada justifica a dose cavalar de sentimentos desagradáveis que a novela tem levado ao ar. Autor muitas vezes criticado por mostrar um Rio glamourizado, sob a perspectiva aprazível do Leblon, Manoel Carlos está triste e não há efeito de computador na Baía de Guanabara que esconda isso. Nas cenas, ou estão discutindo ou fazendo campanha por alguma causa.
Há algumas exceções. As cenas com Joana Mocarzel, que vive a adorável Clara e entrou para a história da TV. As peruíces de Carmen (Natália do Vale). E o carisma de Grazielli Massafera, que também entra para a história, da Globo, como a primeira ex-Big Brother que ajudou a salvar uma novela das 8 que tinha Tarcísio Meira e Sônia Braga no elenco.
Antes de Grazielli, outra novata se destacou. Fernanda Vasconcellos agradou como Nanda, pena que morreu. A bola ficou com Lília Cabral, que ficou ótima como Marta. Pena que ela, que foi enganada pela filha e sustentou a vida toda um marido matusquela, fica doida no final. Isso, após levar umas bolachas do marido. Bolachas que passaram em brancas nuvens, como se a maldade dela justificasse a violência. Por que eles não se separam?
Porque são pobres, informou a personagem nos primeiros capítulos. E pobre mora num apartamento daqueles? Deve morar. Assim como tem rico que não sente falta de US$ 20 milhões. São detalhes divertidos. Personagens que sumiram, outros que morreram e queriam ficar, outro que pediu para morrer, briguinhas, desmaios nos bastidores, namoricos. ''Páginas da Vida'' deu o que falar, foi mais furacão que novela.


