Páginas da música brasileira
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Música nacional é tema de três volumes
que acabam de chegar às livrarias
ReproduçãoFoto da capa de A Canção no TempoNelson Sato
Ponto para a memória musical brasileira. De uma tacada só, três títulos chegam às livrarias para movimentar uma antiga lacuna do mercado editorial, cuja descoberta tem sido cada vez mais explorada com novos lançamentos.
A queixa, frequente até bem pouco tempo, era de que não havia bibliografia disponível sobre música no País e que as únicas fontes de consulta seriam jornais, revistas ou o depoimento vivo dos próprios artistas. Para arquivar de vez essa choradeira, chegam ao público os volumes Enciclopédia da Música Brasileira, A Canção no Tempo - 85 Anos de Músicas Brasileiras (Vol.2) e Cartola - 90 anos. O primeiro é uma reedição revista e ampliada do original publicado pela Art Editora em 1977 e que estava fora de catálogo desde 1985.
Única do gênero no País, a Enciclopédia abrange a música popular, a música erudita e a música folclórica desde o Descobrimento. O relançamento, agora em parceria com a PubliFolha, adicionou 400 novos verbetes à primeira versão, totalizando 3.500 referências em mais de 900 páginas. Os verbetes dedicados aos compositores incluem biografias e relação de suas principais obras.
ReproduçãoFoto da capa de CartolaDeixa, porém, de apresentar uma informação imprescindível para os fãs: a discografia completa dos artistas. Entre os nomes registrados no volume figuram Antonio Carlos Jobim, Heitor Villa Lobos, Chiquinha Gonzaga, Noel Rosa, Chico Buarque, Elis Regina, Isaac Karabchewsky e gente mais nova como Marisa Monte, Mamonas Assassinas, Chico Science, Skank, Fernanda Abreu e Lenine.
Algumas expressões cunhadas pela imprensa - ou por artistas - também são acolhidas, recebendo o carimbo culto nas páginas. É o caso do termo brega, surgido em 82 e que é definido como 1) coisa barata, descuidada ou malfeita. 2) de mau gosto, sinônimo de cafona ou kitsch. 3) a música mais banal, óbvia, direta, sentimental e rotineira possível, que não foge ao uso sem criatividade de clichês musicais (...).
Também obra de referência, o livro A Canção no Tempo - 85 anos de Músicas Brasileiras chega ao segundo volume abrangendo a produção musical pátria de 1958 a 1985. O primeiro volume saiu há um ano enfocando de 1900 a 1957. De autoria de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, a série tenta contar a história da música brasileira através das canções que frequentaram as paradas de sucessos do País.
ReproduçãoCapa da Enciclopédia da Música BrasileiraO título faz parte da coleção Ouvido Musical, da editora 34, que já lançou volumes dedicados aos Mutantes, Luiz Gonzaga, Tropicália e vários outros. Se a empreitada anterior terminava às vésperas do advento da Bossa Nova, esta começa justamente com a explosão do movimento capitaneado por João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
Partindo da bossa nova, os autores fazem um vôo histórico sobre os movimentos e tendências que a ela se sucederam, como a jovem guarda, os festivais, o tropicalismo, o Clube da Esquina, o rock rural, o pop nacional, o breganejo e outros fenômenos musicais surgidos ao longo dos anos abordados na pesquisa.
Ao todo, os autores relacionam 1.056 composições brasileiras, das quais 311 são destacadas e comentadas. A obra mapeia também as canções estrangeiras que fizeram sucesso em terras brazucas, apresentando ainda uma cronologia histórica dos acontecimentos políticos e culturais, além de índices remissivos das músicas e das pessoas focalizadas.
As músicas destacadas e comentadas incluem informações sobre os autores e intérpretes, detalhes da gravação, trechos de letras, a forma e o porquê de ter se tornado um sucesso e - em alguns casos, análise musicológica. Entre entrevistas dos artistas, extraídos de revistas e jornais, há depoimentos exclusivos, como o de Rita Lee, que explica por que costumava gravar com a voz dobrada: A idéia era incrementar a falta de potência mesmo, pois minha voz sempre foi mais para Nara Leão que Elis Regina - conta a roqueira.
O terceiro título da fornada musical é a biografia Cartola - 90 anos (editora do Sesc), escrita por Arley Pereira, que foi um amigo do compositor carioca. Recheado de fotos, o livro inclui fac-símiles de rascunhos de canções deixados por Cartola, além de textos adicionais do compositor Elton Medeiros e do poeta Carlos Drummond de Andrade.
O texto de Drummond, intitulado Cartola, um Moinho no Mundo, é uma crônica publicada originalmente no Jornal do Brasil três dias antes do compositor morrer de câncer. Refazendo a trajetória do Divino, Arley Pereira lembra que Hermínio Bello de Carvalho recortou a página, fez Cartola ler e pregou-a na parede de seu quarto, no hospital.
Foi, talvez, a última alegria de Agenor de Oliveira - anota ele. A vida de Cartola aparece inteira no relato: a iniciação na malandragem do samba conduzido pelo amigo e parceiro Carlos Cachaça, o trabalho de servente de pedreiro cumprido com um chapéu-coco na cabeça, a expulsão de casa pelo pai, a estadia na zona do meretrício, os primeiros sambas vendidos para os cantores Mário Reis e Francisco Alves, a amizade e a parceria com Noel Rosa, as perdas afetivas, o sumiço no final dos anos 40 (quando chegou a ser dado como morto), o sucesso do restaurante Zicartola (que ele abriu com sua então mulher e que se tornaria ponto de encontro de jovens talentos musicais do Rio), a gravação dos discos, o estouro de As Rosas Não Falam (incluída em novela da Globo), as bebedeiras, a saúde declinante e os últimos dias antes de sua morte em 30 de novembro de 1980.
O lançamento fez parte do evento comemorativo dos 90 anos de Cartola (que ele completaria em outubro passado), realizado no Sesc-Pompéia, em São Paulo.





