Pagamento à vista
Zeca Corrêa Leite
Curitiba
Luiz A. Cequinel/Arquivo FolhaHélio Leites: A gente não tem o que vender para sobreviver a não ser a sua arte, a sua idéia, a sua criatividadeHélio Leites, o escultor e artista performático curitibano que faz graça em Curitiba para quebrar um pouco com a carranca da cidade, como ele diz, acabou franzindo o cenho. Para dar entrevistas - sem perder o velho estilo da gentileza e do riso - cobra um pagamento de R$ 7,00.
Engana-se quem pensa que ele está fazendo piada em cima dos artistas globais que exigem cachê para falar com a imprensa. Hélio Leites instituiu essa norma em sua vida há praticamente um ano. Se alguém duvida, que vá até a casa dele - verá um quadro na parede com a nota de R$ 5,00 enviada pela produção do Fantástico.
Foi no dia 29 de março de 1997. Uma moça da produção do programa ligou para acertar uma matéria sobre poetas que sobrevivem da poesia. Ficou assustada quando falei que teria que pagar. Você vai cobrar do Fantástico? Ninguém faz isso, lembra o artista. Ele não só cobrou, como recebeu.
PosturaHélio Leites chegou à conclusão que deveria ter um retorno em dinheiro, sendo ou não conhecido do público, porque ele é um artista que vive unicamente da sua arte. A gente não tem o que vender para sobreviver a não ser a sua arte, a sua idéia, a sua criatividade. Entrevista entra nesta área, acredita.
Como não dá para ficar mirando o céu à espera de que caia dinheiro, Hélio está todos os domingos na Feira de Artesanato, na Praça Garibaldi, expondo seus artesanatos (um Francisco de Assis, montado dentro de um vidrinho, por muito tempo acompanhou o ator Edson Celulari nas suas turnês).
Com Kátia Horn, artista plástica e bonequeira (através de um boneco canta especialmente músicas de Dalva de Oliveira), e Efigênia, que cria seu universo a partir de papéis de bombons e balas, promove shows, exposições e houve até um desfile de modas, com vestes de papel. A atriz Letícia Sabatella, que estava na cidade, participou do evento como maneca.
Os três tomaram essa mesma postura de cobrar a cada entrevista. Se ninguém mais quiser falar com a gente, paciência. Alguém tinha que começar este processo de valorização, defende Leites. A história dos atores globais que fazem a mesma coisa que ele, apenas confirma a validade de sua tese. Estou achando ótimo.
SustoAté o dia 31 de dezembro de 1997 a taxa era de R$ 5,00. Houve reajuste este ano, pulando para os R$ 7,00 que tem assustado, intrigado e irritado aqueles que ainda não sabem dessa história.
A produção de um programa local que vai ao ar pela TV Bandeirantes, alegou falta de patrocínio. Que são R$ 7,00? É quanto custam dois rolos de papel higiênico, reclama Leites. E observa que o valor é muitas vezes inferior aos US$ 150 cobrados normalmente nos Estados Unidos.
Até a TV Educativa, rede estatal, perdeu o interesse de focalizá-lo quando falou-se em dinheiro. O Estado vai mal, hein?, alfinetou o artista a uma funcionária perplexa. Porém, como é que um departamento de jornalismo vai justificar ao Estado esse tipo de pagamento? Dou recibo, responde, imperturbável.
O programa Anexo, da TV Bandeirantes, no último ano esteve por três vezes com o performático. A Áurea (Leminski, apresentadora do programa) pagou sem discutir, afirma.
O mesmo aconteceu com as rádios Cultura e CBN. Nesta última o pagamento se deu com moedas. Hélio Leites não deixou escapar a oportunidade: Chacoalhei aquela porção de moedinhas no microfone e provei aos ouvintes que ali estava meu cachê. Em tempo: esta reportagem foi devidamente paga ao entrevistado, que não aceita vale-refeição como parte do pagamento. Tem que ser dinheiro e à vista, para pagar o condomínio. Vale refeição aceito como doação.





