PAELHA
Maria de Los Angeles
A paelha espanhola não é a mesma argentina. A começar pela pronúncia, lá eles dizem paeja, por conta do sotaque portenho. Aqui vou falar da espanhola, conhecida dessa raça desde que lhe nascem os dentes.
Cada região da Espanha tem a sua, com os alimentos típicos mais abundantes, como as lebres selvagens que ainda existem no interior, enriquecidas com o que a horta estiver produzindo. Em casa fazia-se paelha com o que tivesse na geladeira: frango, tomates, carne, peixe, coelho, couve-flor, pimentões de qualquer cor. Mas três coisas são imprescindíveis, o arroz, o açafrão a paelheira.
A mais famosa e completa é a que se faz em Valencia, onde entram todos os frutos que o mar ao lado fornece, e de quebra, carnes de aves, de porco, vagens, ervilhas, alcachofras e outros legumes que vão combinar com o sabor das carnes e dos camarões, mexilhões, lulas, polvos, caracóis (os scargots franceses) e claro, lagostas, que são colocadas em cima de tudo, como guardiãs do delicioso e completo risoto amarelo que está embaixo.
Mas o melhor de tudo é o sabor que todos esses ingredientes passarão ao arroz, que vai ser único e inesquecível .
As pessoas imaginam que a paelha é um prato complicadíssimo, mas garanto que se pode fazer excelentes apenas com frango, ou só com camarões e lindos pimentões vermelhos, verdes, amarelos. O resultado sempre será uma festa para os olhos, mandala colorida exposta em frigideira rasa porque, sim, a panela é importante. A paelheira não deve ter mais que uns 20 centímetros de altura. Quanto ao açafrão, tempero muito suave feito com o pistilo da flor lilás do mesmo nome, encontra-se em qualquer loja de importados, ou no estado natural, ou em papelotes, já preparado e para decepção de muita gente, pó amarelo e muito saudável.
A maioria dos espanhóis é muito comilona, emocional e meio louca, com uma genialidade sem dúvida alimentada a muita paelha. Estereótipos perfeitos como por exemplo Salvador Dalí, Picasso, Gaudí, Garcia Lorca, Cervantes, Almodóvar.
É preciso se reunir para comer, uma paelha comida sozinha é a coisa mais triste e solitária que se pode conceber. Como os espanhóis são muito terra a terra às vezes dispensam qualquer tipo de etiqueta e comem direto da paelheira, cada comensal com seu garfo e seu copo de vinho. Cada um no canto da paelheira que lhe corresponde, sendo gafe avançar onde o garfo do outro alcança. Mas é sempre uma festa, a Távola Redonda Camponesa, no caso a paelheira, onde varia o diâmetro, mas sem deixar nunca de ser um prato de ferro circular e grande.
Uma paelha bem-feita cheira longe. Como incenso gastronômico enlouquece gatos e vizinhos por vários quarteirões. No caso dos gatos, dariam de bom grado algumas de suas sete vidas para comer aquilo que perfuma o ar.
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