Padre Cícero em preto e branco
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de março de 2014
Ana Paula Nascimento<br>Reportagem Local 
Admirador de fotografia desde criança, foi na fase adulta ainda mais motivado pelo advento da tecnologia digital - que o advogado Ricardo Francisco Cosmo, 40 anos, passou a se dedicar como autodidata à arte de fotografar, transformando a atividade em seu principal hobby. Como todo fotógrafo que se preze, a máquina fotográfica está sempre a postos em suas viagens e foi em uma delas que registrou a imagem que ilustra a capa da terceira edição do livro "Milagre de Joaseiro", em que utiliza no título a antiga grafia da cidade, do norte-americano e brasilianista Ralph Della Cava, pela Companhia das Letras. A publicação foi relançada em fevereiro deste ano após 44 anos da primeira edição em inglês - e ainda é considerada uma das principais obras sobre o legado histórico e social de Padre Cícero (1844-1934).
O registro aconteceu durante viagem em família ao Santuário do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte (CE), no Vale do Cariri, em 17 de julho de 2011, quando o fotógrafo levou o seu pai o aposentado Francisco Cosmo Filho - na época com 69 anos - para retornar pela primeira vez à sua terra natal. Aos 10 anos de idade ele veio para o Paraná, junto com pai, mãe e oito irmãos, em busca de uma vida melhor. "Seu Grosso" (apelido ganho na infância por ter sido uma criança "gordinha", "grossinha") acabou fazendo a vida como barbeiro, em Bandeirantes, município do Norte Pioneiro, e ainda lembra da devoção que todos tinham pela figura de Padre Cícero. "Meu pai sempre fala da fé que as pessoas tinham por ele (Padre Cícero) e fizemos questão de visitar o santuário, onde registrei a foto que acabou indo parar na capa do livro. É impressionante a força do turismo religioso local", afirma Cosmo, satisfeito pela feliz coincidência.
Acostumado a colocar algumas de suas fotos na galeria virtual Flickr, foi com surpresa que recebeu o contato de um representante da editora Companhia das Letras, demonstrando interesse pela sua foto, dois anos após a postagem. "Acho que o que chamou a atenção deles foi o céu dramático da foto, feita durante o inverno, e o ar de austeridade que o ângulo da imagem passa. Não sei se o autor teve participação na escolha da capa", observa Cosmo, que também recebeu um exemplar do livro como cortesia da editora. "Não esperava esse tipo coisa e tudo isso foi uma motivação a mais para continuar fotografando. É sempre uma oportunidade para mostrar o meu trabalho", comemora o fotógrafo, que já trabalhou como freelancer para a Folha Norte. Leia abaixo entrevista com o autor do livro, o escritor Ralph Della Cava.
O pequeno município de Juazeiro do Norte nunca foi o mesmo depois do dia 1º de março de 1889. Naquele dia, Padre Cícero dava a comunhão aos fiéis de Juazeiro quando a hóstia entregue à costureira e beata Maria de Araújo se transformou em sangue na sua boca. O acontecimento, que se repetiu por vários dias e voltou a acontecer dois anos depois, logo ganhou dimensão nacional, sendo apontado por muitos como milagre.
Com complexos desdobramentos místico políticos, inclusive perseguição por parte da Santa Sé, que condenou o suposto milagre e o próprio Padre Cícero, o "Padim Ciço" influencia milhões de fiéis até hoje.
Na década de 1970 o fenômeno chamou a atenção do professor norte-americano Ralph Della Cava, 80 anos, que chegou a morar em Juazeiro para ir a fundo no tema da sua tese de doutorado, tendo acesso a documentos raros.
Após a primeira edição em inglês, o livro agora ganha sua terceira edição pela Companhia das Letras - "Milagre em Joaseiro" - que utiliza no título a grafia do antigo nome da cidade. Atualmente pesquisador sênior do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Columbia, em Nova York, Cava contou por e-mail mais detalhes sobre o seu clássico ensaio, considerado um dos trabalhos historiográficos e de Ciências Sociais mais influentes das últimas décadas no País.
Ralph Della Cava - O mesmo valor que teve há 44 anos: em vez de mito, exageros e mentiras, contava a história de Joaseiro e do seu fundador a partir de fontes primárias, dos documentos de arquivos eclesiásticos e dos do próprio arquivo de Padre Cícero.
E, mostrou de uma vez por todas que a história de Joaseiro e do Padre Cícero faz parte integral da história do Brasil e da Igreja Católica, e da economia que se operava em escala regional, nacional e internacional.
O que faz com que a nova edição ressalte das anteriores reside não só na excelência gráfica da própria impressão, mas também na nova apresentação, crítica e erudita, do Professor Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes da Universidade Federal do Ceará, que dá novas pistas para serem pesquisadas.
Ficamos 14 meses no Brasil (eu, a esposa Olga, o filho Marco de dois anos e a nossa Miriam, recém-nascida em Fortaleza em agosto de 1964), e passávamos uns quatro meses juntos. Naquela época a cidade não tinha um hotel familiar, mas tivemos grande sorte: Olga e as crianças moravam num convento de freiras no centro da cidade em frente da Matriz. E, eu, no outro lado da cidade, no Colégio Salesiano onde eu e o Padre Manuel Isaú desbravávamos as caixas de documentos do arquivo do Padre Cícero. Na época, Joaseiro era uma cidade onde os vizinhos, à tarde, colocavam as cadeiras em roda na calçada para conversar. Olga e eu pulávamos de roda em roda, escutando as versões diversas da história da própria cidade e do Cariri. Eram fontes tão indispensáveis com as dos arquivos.
A imensa bondade dele, como homem e como sacerdote. Dava para os romeiros, retirantes e flagelados que procuravam Joaseiro, trabalho, conselho e a dignidade que mereceram.
Indiretamente. Do início expressei a esperança que a capa mostrasse o imenso respeito que o povo tem para com o Padre Cícero.
Tanto a foto como a montagem resultaram numa capa de extraordinária beleza, discrição e significado. Adorei!
A capa capta a grandeza humana do Padre Cícero e a sua permanente presença na vida de seus admiradores.
Sim, no grande milagre que é o próprio Joaseiro. Uma encruzilhada perdida há um século e pouco no interior do Nordeste virou hoje a segunda maior cidade do Ceará (em número de habitantes e no tamanho da sua economia). Continua a atrair cada ano quase dois milhões de visitantes - entre romeiros, curiosos e turistas. É o maior centro de artesanato popular, de pequenas indústrias, e de comércio regional e internacional.


