Padrão renovado
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quarta-feira, 09 de agosto de 2000
Rodrigo Teixeira TV Press 
No momento em que a Globo está em plena reforma da programação, a aposta em Ana Paula Padrão como âncora e editora executiva do Jornal da Globo tem tudo para dar certo. Tanto que o telejornal conseguiu a média de 22 pontos de audiência contra 19 que vinha sendo mantida por Carlos Tramontina. Bem-sucedida como correspondente internacional em Londres e Nova York período em que fechou a série de reportagens no Afeganistão , Ana Paula Padrão consegue aliar simpatia e credibilidade. Mais que isso. Ela está longe de ter o estilo abnegado da maioria dos apresentadores de telejornais, como o próprio Carlos Tramontina, que fez o tapa-buraco após a saída de Lilian Witte Fibe. Tramontina parece ter mais afinidades com o ambiente frio dos estúdios do que com o calor das ruas, ao contrário de Ana Paula. A bela jornalista de 34 anos deixou o Jornal da Globo bem mais dinâmico.
Ana Paula também se mostrou disposta também a cumprir a promessa de aprofundar algumas pautas. Como por exemplo, no caso da longa matéria de Caco Barcellos no programa de estréia, sobre o apartamento em Miami do foragido ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, que ganhou desdobramentos. Depois de mostrar o repórter Caco Barcellos apontando os rastros deixados pela presença de Nicolau na sua luxuosa residência americana, Ana Paula chamou um link de Brasília com Carlos Monforte dizendo que a Polícia Federal não tinha a menor idéia do paradeiro do ex-juiz e abriu para o comentário de Arnaldo Jabor. A impressão é que o Jornal da Globo finalmente sepulta o ar narcisista dos tempos de Lilian Witte Fibe para se centrar na notícia como o principal objetivo.
Mais importante: como o telejornal é o último da programação da Globo, é fundamental, para não dizer óbvio, fazer um resumo com as principais notícias do dia. Além do resumão, Ana Paula faz uma última checagem. Ela chama o repórter ao vivo do local da notícia e depois, com a voz em off, conta o que aconteceu. Foi assim nas matérias sobre o interrogatório de Luiz Estêvão na Justiça Federal, em São Paulo, e o cotidiano do Rei das Quentinhas, Jair Coelho, no presídio. Mas, inexplicavelmente, o Jornal da Globo ainda insiste em não antecipar as manchetes dos principais jornais impressos do país, que ajudaria a demolir o ranço provinciano da Globo, exposta pela política de evitar citar concorrentes e até o nome das empresas que aparecem nos noticiários, embora os dois tipos de informação interessem aos telespectadores.
Mas ninguém é perfeito. Na ânsia de fazer algum comentário com repórteres ao vivo, Ana Paula engasgou algumas vezes ao ler o teleprompter uma espécie de projetor com o texto a ser lido pelos locutores. Aí ela recorre ao charme que tem para minimizar o problema. Diz um ditado obviamente machista que mulher bonita, mesmo que seja jornalista, não erra. Apenas se engana. Mas além do jeito que une discrição com arrojo, Ana Paula Padrão tem moral com o espectador por já ter a experiência de 15 anos como repórter. Moral que faz com que ela possa ouvir de Willian Waack, também ex-correspondente da Globo, afirmações como você, como eu, que já cobrimos várias eleições no exterior, sabemos que é tudo bem diferente do Brasil.
A verdade é que o Jornal da Globo ganhou com a entrada de Ana Paula Padrão um ar leve sem ficar mais superficial. Apesar de manter os cenários e ter mudado discretamente o logotipo, o telejornal finalmente obteve com Ana Paula Padrão uma personalidade palpável. Tanto que, logo de cara, a apresentadora bateu de frente com o todo-poderoso diretor da Central Globo de Jornalismo, Evandro Carlos de Andrade. Sem pedir permissão, Ana Paula saiu dando entrevistas e prometendo uma identidade nova ao Jornal da Globo. Se não bastasse, em algumas fotos publicadas, aparecia em posições ousadas para uma editora executiva e âncora do segundo principal telejornal da emissora de Roberto Marinho. Autonomia, porém, é para quem tem talento e sabe que tem.


