No momento em que a Globo está em plena reforma da programação, a aposta em Ana Paula Padrão como âncora e editora executiva do ‘‘Jornal da Globo’’ tem tudo para dar certo. Tanto que o telejornal conseguiu a média de 22 pontos de audiência contra 19 que vinha sendo mantida por Carlos Tramontina. Bem-sucedida como correspondente internacional em Londres e Nova York – período em que fechou a série de reportagens no Afeganistão –, Ana Paula Padrão consegue aliar simpatia e credibilidade. Mais que isso. Ela está longe de ter o estilo abnegado da maioria dos apresentadores de telejornais, como o próprio Carlos Tramontina, que fez o tapa-buraco após a saída de Lilian Witte Fibe. Tramontina parece ter mais afinidades com o ambiente frio dos estúdios do que com o calor das ruas, ao contrário de Ana Paula. A bela jornalista de 34 anos deixou o ‘‘Jornal da Globo’’ bem mais dinâmico.
Ana Paula também se mostrou disposta também a cumprir a promessa de aprofundar algumas pautas. Como por exemplo, no caso da longa matéria de Caco Barcellos no programa de estréia, sobre o apartamento em Miami do foragido ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, que ganhou desdobramentos. Depois de mostrar o repórter Caco Barcellos apontando os rastros deixados pela presença de Nicolau na sua luxuosa residência americana, Ana Paula chamou um ‘‘link’’ de Brasília com Carlos Monforte dizendo que a Polícia Federal não tinha a menor idéia do paradeiro do ex-juiz e abriu para o comentário de Arnaldo Jabor. A impressão é que o ‘‘Jornal da Globo’’ finalmente sepulta o ar narcisista dos tempos de Lilian Witte Fibe para se centrar na notícia como o principal objetivo.
Mais importante: como o telejornal é o último da programação da Globo, é fundamental, para não dizer óbvio, fazer um resumo com as principais notícias do dia. Além do resumão, Ana Paula faz uma última checagem. Ela chama o repórter ao vivo do local da notícia e depois, com a voz em off, conta o que aconteceu. Foi assim nas matérias sobre o interrogatório de Luiz Estêvão na Justiça Federal, em São Paulo, e o cotidiano do Rei das Quentinhas, Jair Coelho, no presídio. Mas, inexplicavelmente, o ‘‘Jornal da Globo’’ ainda insiste em não antecipar as manchetes dos principais jornais impressos do país, que ajudaria a demolir o ranço provinciano da Globo, exposta pela política de evitar citar concorrentes e até o nome das empresas que aparecem nos noticiários, embora os dois tipos de informação interessem aos telespectadores.
Mas ninguém é perfeito. Na ânsia de fazer algum comentário com repórteres ao vivo, Ana Paula engasgou algumas vezes ao ler o teleprompter – uma espécie de projetor com o texto a ser lido pelos locutores. Aí ela recorre ao charme que tem para minimizar o problema. Diz um ditado – obviamente machista – que mulher bonita, mesmo que seja jornalista, não erra. Apenas se engana. Mas além do jeito que une discrição com arrojo, Ana Paula Padrão tem moral com o espectador por já ter a experiência de 15 anos como repórter. Moral que faz com que ela possa ouvir de Willian Waack, também ex-correspondente da Globo, afirmações como ‘‘você, como eu, que já cobrimos várias eleições no exterior, sabemos que é tudo bem diferente do Brasil’’.
A verdade é que o ‘‘Jornal da Globo’’ ganhou com a entrada de Ana Paula Padrão um ar leve sem ficar mais superficial. Apesar de manter os cenários e ter mudado discretamente o logotipo, o telejornal finalmente obteve com Ana Paula Padrão uma personalidade palpável. Tanto que, logo de cara, a apresentadora bateu de frente com o todo-poderoso diretor da Central Globo de Jornalismo, Evandro Carlos de Andrade. Sem pedir permissão, Ana Paula saiu dando entrevistas e prometendo uma identidade nova ao ‘‘Jornal da Globo’’. Se não bastasse, em algumas fotos publicadas, aparecia em posições ousadas para uma editora executiva e âncora do segundo principal telejornal da emissora de Roberto Marinho. Autonomia, porém, é para quem tem talento e sabe que tem.

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