Pacote de cinco fitas celebra o personagem Zé do Caixão
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2000
Por Ubiratan Brasil 
São Paulo, 24 (AE) - Admirado por Gláuber Rocha, desprezado pela crítica e perseguido pela censura, o cineasta José Mojica Marins rodou cerca de 150 filmes em mais de 40 anos de carreira, mas foi apenas em um punhado deles que interpretou o personagem que o deixou conhecido até nos Estados Unidos: Zé do Caixão. E os filmes mais representativos foram reunidos em uma coleção de cinco fitas, que será lançada em video às 19 horas de amanhã (25), pela Continental, na Fnac (Rua Pedroso de Morais, 858), ao preço de R$ 100,00, com a presença do próprio Mojica Marins, que fará uma palestra.
O diretor não planeja apresentar-se a caráter, ou seja, com a capa e o chapéu pretos que marcaram seu personagem - prefere que os filmes ocupem a posição de estrelas da noite. Mesmo assim, não escapará de uma série de perguntas a respeito de sua criação. Há muito folclore em torno de Mojica, principalmente por causa do personagem Zé do Caixão, que nasceu em 1963, no filme "À Meia-Noite Levarei Sua Alma", justamente a primeira fita da coleção de vídeo. A figura já clássica surgiu a partir de um sonho de Mojica, que se via empurrado por um homem vestido de preto para dentro de uma gruta, onde estava um caixão com as datas de seu nascimento e morte.
No filme, Zé do Caixão é um temido coveiro que busca a mulher ideal para gerar o filho perfeito. Cena clássica: um herético Zé come carne com prazer, enquanto acompanha pela janela uma procissão de Páscoa. A história teve uma sequência, "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver", de 1967, segundo volume da coleção, em que surgem os primeiros problemas com a censura, que obrigou Mojica a alterar o fim do filme. Zé do Caixão ainda busca a mulher perfeita e rapta seis moças, que serão torturadas até que a mais corajosa sobreviva.
Ao assassinar uma grávida, porém, o coveiro sofre com um pesadelo, no qual é enviado para um inferno gelado, onde reencontra suas vítimas, em uma espetacular sequência. Os censores obrigaram o cineasta a transformar Zé do Caixão em um sujeito crédulo e religioso. O conteúdo de seus filmes, na verdade, sempre desafiou valores familiares e religiosos. Com o controle cultural acirrado pelos governos militares, Mojica era obrigado a mudar finais ou dublar novamente trechos considerados ofensivos com textos mais leves - isso quando não tinha cenas inteiras cortadas.
O terceiro volume da coleção, "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", em que o coveiro apresenta três contos de terror, teve 20 minutos cortados em que um personagem arranca a coroa de espinhos de Cristo e crava-a na cabeça de outra pessoa. A censura foi mais implacável com o quarto volume da série, "O Despertar da Besta", para muitos a obra-prima de Mojica. Previsto inicialmente como "O Ritual dos Sádicos", ficou inédito durante anos até ser rebatizado. Mesmo assim, sofreu vários vetos pela censura e acabou inédito comercialmente - Mojica conta que foi ameaçado de prisão caso o filme fosse lançado.
A trama, não-linear, abusa da metalinguagem: um psiquiatra injeta LSD em quatro viciados para estudar os efeitos da droga sob a influência da imagem de Zé do Caixão. O personagem aparece durante os delírios psicodélicos de cada um, misturando sexo, perversão e sadismo. Apesar da história hermética, Mojica aproveita para exercitar seus experimentalismos, realizando efeitos especiais incríveis com dupla e até tripla exposição do negativo.
Makdito - A fama de maldito, aliada à marginalização imposta pela recém-criada Embrafilme, provocaram um declínio na carreira de Mojica, no início dos anos 70. A perseguição policial também foi mais intensa - o cineasta chegou a ser preso durante um dia, quando reclamou de espancamento. Segundo ele, os policiais queriam que confessasse relações com uma menor de idade. Fruto dessa época, "Finis Hominis - O Fim do Homem", quinto volume da coleção, apresenta um desinteressante estudo sobre a exploração da fé.
No fim desse período, cheio de dificuldades, o cineasta chegou a rodar filmes eróticos e pornográficos. A redescoberta começou na década seguinte, quando começaram a circular nos Estados Unidos fitas piratas de seus filmes. Lá, o personagem foi batizado de Coffin Joe e recebeu elogios de outros cineastas
como Roger Corman, que o conheceu pessoalmente. Serviço - Coleção Zé do Caixão. Cinco fitas do ator e diretor José Mojica Marins. Continental


