Pacote da Cult traz temas novos e eternos
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quarta-feira, 18 de agosto de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 19 (AE) - Já nas locadoras, o pacote de agosto da Cult traz o filé das distribuidoras Imovision, Pandora e Filmes da Mostra no segmento cinema de arte. São três novos filmes: "A Vida de Jesus", de Bruno Dumont, "Clandestino em Paris", de Merzak Allouache, e "O Sétimo Selo", de Ingmar Bergman. Os dois primeiros tratam de desemprego e racismo na França, expondo os problemas da nova Europa unificada. O terceiro é um clássico do mestre sueco nos anos 50. Dois bons e um grande filme.
O francês Dumont provocou sensação no Festival de Cannes deste ano com um filme que tem o sugestivo título de "LHumanité". Será uma das atrações já anunciadas da próxima Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. "LHumanité" radicaliza a proposta de "A Vida de Jesus" ao trazer para a tela a vida estagnada da província francesa. Dumont fez os dois filmes na cidade de Balleuil, em Flandres, onde nasceu. À reportagem, ele explicou, em Cannes, que conhece bem a província
esse tipo de vida em que o tempo parece parado e as pessoas cumprimentam-se nas calçadas.
Chama-se Freddy o protagonista. Desempregado e epilético
vive o seu calvário, como um Cristo moderno, para que Dumont possa tratar de seus temas preferidos. Como Robert Bresson, ele fala sobre a dificuldade de comunicação e recorre ao visível para sugerir o que é invisível para os olhos. Um cinema de autor
sensível e exigente. O diretor propõe uma ponte entre seus dois filmes ao fazer com que o policial que interroga Freddy no fim seja o protagonista de "LHumanité". Em Cannes, Dumont polemizou ao dizer que o belo não é verdadeiro. Ele filma como quem propõe uma experiência para o espectador. Não facilita as coisas para quem vai ver "A Vida de Jesus" e "LHumanité". Sua ambição é criar obras que permaneçam com o público após a projeção. Mesmo que você rejeite a concepção de "A Vida de Jesus", dificilmente ficará impune à força que emana do filme.
"Clandestino em Paris" é comparativamente mais leve, mas só aparentemente. O diretor argelino Allouache faz o que não deixa de ser uma crônica de costumes sobre um compatriota que chega a Paris como clandestino. Seu nome é Alilo e ele deve apanhar uma mala valiosa porque contém contrabando de roupas. Só que Alilo perde um endereço e, a partir daí, as coisas complicam-se. Ele vai parar na casa de um parente que se considera francês legítimo e fala na gíria da periferia.
Allouache mostra uma Paris que está longe de ser aquela dos cartões-postais. Visita um submundo repleto de pequenos marginais que não têm outro objetivo senão sobreviver. É um universo entre o sórdido e o poético, que o diretor filma de forma a embutir, em "Clandestino em Paris", um tema dos mais interessantes: a relação entre a metrópole e a ex-colônia. Alilo representa a Argélia ingênua que vê a metrópole com um certo deslumbramento, mas não perde suas raízes, ao contrário do primo. Comentário pertinente e inteligente, que ajuda a dar relevo ao filme, amparado num exemplar trabalho dos atores Gad Elmaleh e Mess Hattou.
"A Vida de Jesus" e "Clandestino em Paris" são filmes dos anos 90. O primeiro chegou a ganhar o troféu Bandeira Paulista como o melhor da Mostra Internacional de São Paulo em 1997. Na sua justificativa, o júri, que deu o prêmio em unanimidade, destacou que Dumont discute o social e faz avançar a linguagem do cinema. Quem fazia avançar a linguagem era Bergman, há mais de 40 anos, quando fez "O Sétimo Selo".
No volume sobre o filme na coleção Artemídia da Rocco, Melvyn Bragg vê em "O Sétimo Selo" uma projeção das questões absorvidas pelo cineasta na infância. Filho de um pastor religioso, Bergman desde cedo foi absorvido por questões como: Deus existe? Há vida após a morte? Para responder a essas (e outras) perguntas, surgiu a história do cavaleiro Antonius Block (Max Von Sydow) que duela com a morte numa partida de xadrez, enquanto a peste grassa ao seu redor, na Suécia medieval que Bergman reconstituiu no pátio da empresa produtora Svensk.
Grande como é "O Sétimo Selo", com sua dimensão de parábola, o filme ostenta uma curiosidade toda especial para quem for revê-lo em vídeo. Ela se prende justamente às circunstâncias da rodagem em plena área urbana de Estocolmo. Numa cena na floresta, pode-se ver a luz do Sol refletida na janela de um edifício das proximidades. A gafe não retira nada da grandeza do filme, mas suficientemente curiosa para que o espectador veja "O Sétimo Selo" com o dedo na tela rewind, vendo de novo a cena até conseguir flagrar o erro.


