Pacote da Columbia tem "Dublê de Corpo" Luiz Carlos Merten
São Paulo, 01 (AE) - São 75 anos da Columbia iluminando as telas de todo o mundo. Para comemorar a data, a Columbia Tristar Home Vídeo está colocando um pacote de nove filmes nas locadoras de todo o Brasil, todas estalando de novas, para venda direta e locação. Um dos títulos mais atraentes é "Dublê de Corpo", de Brian De Palma. É um dos filmes mais característicos do cineasta. Pertence a sua fase de discípulo aplicado de Alfred Hitchcock, o mestre do suspense.
De Palma é obcecado pelo tema da ternura e da violência dos homens com as mulheres. Talvez seja o mais misógino dos cineastas. Não por acaso, é odiado pelas feministas. Em seus filmes, as mulheres são veneradas e sublimadas como objetos de prazer para terminar quase sempre retalhadas, punidas por sua exuberante feminilidade. Em "Dublê de Corpo", uma delas termina com o corpo trespassado por uma furadeira que não poderia ser mais fálica. A paixão do menino e o rancor do macho adulto espalham-se pelo filme, que mistura elementos de duas obras maiores de Hitchcock, "Um Corpo Que Cai" e "Janela Indiscreta", com toques de um filme menor, mas delicioso, do mestre: "Disque M para Matar".
São 110 minutos de provocações permeadas de sensualidade
começando com um "Corta!" e terminando com um "Roda!", pois "Dublê de Corpo" trata, entre outras coisas, do universo de espelhos do próprio cinema. É a história de um ator que sofre de claustrofobia. Na abertura, Jack Scully é incapaz de interpretar a cena em que, como vampiro, deve levantar-se do seu esquife. O filme é a história de um pesadelo e uma cura. Scully, interpretado por Craig Wasson, será envolvido numa trama de assassinato. Ele só supera seu trauma quando se encontra numa verdadeira tumba, à mercê de um assassino. É a repetição do esquema de "Um Corpo Que Cai", em que Scottie (James Stewart) só descobre o mistério do assassinato ao enfrentar de novo (e superar) a vertigem.
Se Scully é o protagonista, a dublê de corpo do título é Melanie Griffith, como uma certa Holly Body (Corpo Sagrado) que incendeia de desejo o herói. Holly é o objeto de desejo não só de Scully, mas do espectador. Nenhum macho é imune ao seu poder de sedução. É peça fundamental no plano de assassinato. Holly fornece o corpo que enlouquece Scully quando visto da janela indiscreta em que ele presencia o crime. Só ao possuí-la Scully começa a resolver o mistério. E deixa de ser voyeur - o tema do filme é o voyeurismo - para ser ator de verdade, habilitando-se a interpretar as cenas que referendam sua impotência no princípio.
"Dublê de Corpo" é o tipo do filme que pode ser descartado por inverossímil. Há um desprezo consciente do diretor pela credibilidade, que lhe importa pouco (ou nada). De Palma é pós-moderno de carteirinha. Permeia o filme de citações e referências, tudo girando em torno do sexo. Não é para ser julgado em termos morais, mas desfrutado como pura construção intelectual.





