Paço Municipal expõe o melhor da arte mexicana dos anos 40 a 60
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quinta-feira, 12 de agosto de 1999
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 13 (AE) - O melhor da arte mexicana, dos anos 40 a 60, vai estar exposto a partir de terça-feira no Paço Imperial, no centro do Rio. São 73 quadros de artistas como os badalados Frida Kahlo e Diego Rivera, José Clemente Orozco, Alfaro Siqueiros ou ángel Zárraga. As obras vêm da Fundação Vergel, que administra a herança deixada pelo casal Natasha e Jacques Gelman
dois europeus que imigraram para o México no fim dos anos 30 e se tornaram mecenas dos artistas locais.
A história do casal é interessante. Ele era judeu e russo, foi criado em Berlim e, com o nazismo, teve de fugir para o México. Na Alemanhã, era proprietário de uma distribuidora de filmes, atividade que manteve e que o aproximou de atores do período áureo do cinema mexicano, como Mário Cantinflas e Maria Félix. Natasha era checa, foi criada em Viena e passava férias no México, em 1941, quando conheceu Jacques. Da paixão ao casamento, foi um pulo e os dois tornaram-se populares nos meios artísticos do País. "Era um período em que havia muitos refugiados europeus no México e as artes se entrelaçavam; os pintores faziam cenários para balés e filmes, atores posavam para artistas plásticos, etc", ensina o curador da mostra e diretor da Fundação Vergel, o americano Robert Littman. "Assim, por meio do cinema, os Gelmans conheceram artistas em início de carreira ou ainda não consagrados, cujas obras compravam por gosto pessoal".
É o caso de Frida Kahlo, cujos quadros formam boa parte da coleção. Natasha e a mulher de Diego Rivera eram amigas íntimas e o que a milionária comprou foi a obra mais lírica, ingênua. A senhora Gelman não tinha dela a imagem de mulher desesperada e sombria que temos hoje. Nem imaginava que seus quadros se valorizariam tanto. "Até morrer, no ano passado, Natasha não compreendia por que o seguro dos quadros de Frida Kahlo era tão caro", conta Littman. "Para ela, eram obras de sua amiga, uma menina talentosa, alegre e gentil".
"Naquela época, ninguém conhecia Frida, que não passava de Señora Rivera, esposa de um artista consagrado que também tinha suas obras", brinca Littman. "Hoje é o contrário; ele é quem ficou conhecido como o Señor Kahlo", ironiza. No caso de Diego Rivera, os Gelmans ficaram com várias obras feitas sob encomenda. "Apesar de ser um artista de tendências socialistas, quem o mantinha eram os capitalistas que podiam comprar seus quadros", diz o curador. Outros artistas viviam situação semelhante e a quantidade de retratos de Natasha Gelman, mulher bela, elegante e vaidosa, indica que eles costumavam socorrer quem estava em apuros financeiros.
A coleção Gelman não parou de crescer com a morte de Jacques, em 1986. A Fundação Vergel, criada por iniciativa dele, continuou comprando obras contemporâneas de artistas que ainda não alcançaram o sucesso. "Quisemos manter viva a idéia dos Gelmans de procurar sempre o novo e trazê-lo para o acervo", comenta Littman. Além da residência na Cidade do México, eles mantinham também um apartamento em Nova York, onde guardavam obras da escola de Paris. "Aí também há preciosidades, como Picassos, Modiglianis, Mirós, mas eles não serão mostrados aqui desta vez", explica Littman. "Nossa intenção com essa mostra é tornar conhecida no mundo inteiro a arte mexicana".
A Coleção Gelman passa pelo Brasil quase por acaso. Estava exposta até o mês passado em Buenos Aires e depois ia para Madri e La Coruña, na Espanha, antes de voltar para casa, na Cidade do México. No entanto, problemas de agenda dos museus espanhóis permitiram que as obras fizessem uma escala de um mês no Rio.


