Paço das Artes inaugura três exposições individuais simultâneas
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terça-feira, 13 de julho de 1999
Por Maria Hirszman 
São paulo, 14 (AE) - Quebrando o marasmo que tomou conta do circuito das artes plásticas neste mês de férias, o Paço das Artes, em São Paulo, inaugura amanhã (15) à noite três exposições individuais simultâneas que demonstram a vitalidade e a diversidade de produção artística contemporânea. As exposições de Edilaine Cunha, Paulo DAlessandro e Marina Saleme fazem parte da Temporada de Projetos 99. Os dois primeiros comparecem como artistas selecionados por meio de portfólio, enquanto Marina Saleme foi convidada especialmente pela direção da instituição, com outros quatro artistas, que exporão no local ao longo do ano.
Inicialmente, a pintora deveria expor há dois meses e sozinha (como ocorreu com a primeira convidada da Temporada, Carmela Gross), mas certas modificações no calendário fizeram com que sua mostra fosse adiada e coincidisse com as outras duas exposições. Ela e os espectadores só têm a ganhar com essa alteração. Além de tornar a visita ao Paço mais atrativa e ocupar de forma mais plena - mesmo assim há muitas áreas vazias - o belo prédio da Cidade Universitária, é interessante contrapor as pesquisas e tentar estabelecer conexões entre as múltiplas linguagens e os caminhos individuais de cada artista.
Logo ao entrar no prédio, o visitante depara-se com a fotografia de Paulo DAlessandro, que, há mais de dois anos, se vem dedicando a uma série de trabalhos sobre São Paulo. Ninguém deve esperar, no entanto, encontrar um trabalho que pertença à linhagem do registro tradicional, apesar de DAlessandro ter tido uma formação clássica de fotógrafo. "São imagens construídas por erros fotográficos", explica o artista. As cenas desfocadas e pouco nítidas que compõem seus quadros mostram normalmente espaços vazios, comumente desprezados, da cidade.
A intensidade das cores - que ajuda a aproximar ainda mais esse trabalho de um discurso pictórico - também ajuda a criar uma atmosfera ao mesmo tempo densa e difusa. "Queria criar a sensação de um habitante desta cidade e acabei usando o próprio meio fotográfico para discutir essa coisa de não ter horizonte: aqui abrimos a janela e vemos um muro, um fio ou um tumulto", lamenta. Apesar de conter uma evidente leitura crítica em relação a essa gigantesca e desumana metrópole (não é à toa que a figura humana não tem espaço nesse trabalho), a obra de DAlessandro não se pretende realista. Propositalmente, ele tira do espectador qualquer ponto de referência confiável e fica na fronteira entre a figura e a abstração.
De certa forma, Edilaine trabalha no sentido oposto, mas deixa o espectador com a mesma sensação de desconforto. Ela retira elementos gráficos do universo abstrato dos cálculos arquitetônicos ou das figuras decorrentes de erros de computador para construir paisagens. É o caso dos trabalhos "Muros 1, 2 e 3". A artista, que realiza agora sua primeira individual, apropriou-se de erros de impressão eletrostática por computador e deu-lhes a forma de grandes e protegidas muralhas, como as de uma assustadora penitenciária. "Cresci perto do Carandiru e sempre que passava por esse muro ficava impressionada", conta.
Outro trabalho curioso de Edilaine é o túnel que ela "cavou" na parede do Paço e provoca certa vertigem. Todo o cálculo foi feito de forma que o espectador visse o túnel, mas não sua saída - numa clara metáfora da situação atual. A matéria das coisas - A tênue fronteira entre figura e abstração também é marca registrada da obra de Marina Saleme, que desta vez expõe uma série de cinco telas à óleo, realizadas especialmente para essa mostra. "Estou querendo discutir aqui como as coisas são feitas", diz ela. "Meu trabalho trata do volume, da matéria das coisas", explica. A artista não teme as cores. Muito pelo contrário: ela as utiliza para estabelecer essas tênues relações entre os elementos pictóricos. "Eu uso a cor não como tom, mas como consistência, como elemento vital para a construção desse espaço", esclarece.
Em algumas telas, a relação com o título da exposição - "Chuvas" - é evidente. Elas são divididas em dois campos. A área mais suave (e etérea) parece sustentar uma faixa mais vibrante e de cor mais intensa e compacta, que se dissolve e cai em grossos pingos. Em outros trabalhos, como "Duas Pessoas", ela utiliza uma sutileza e uma ambiguidade ainda maior, inserindo elementos de forma quase imperceptível na paisagem, sem que saibamos ao certo os limites das coisas, "se somos a matéria ou o entorno". Serviço - "Temporada de Projetos/99". De segunda a sexta, das 13 às 20 h; sábado e domingo, das 14 às 19 h. Paço das Artes. Av. da Universidade, 1, em São Paulo. fone - 813-3627. Até 8/8.


