Ouvidos afinados para outras culturas
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segunda-feira, 26 de março de 2018
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 

As crianças da aldeia indígena tururucari-Uka, cantam "Zana Makatipa, Kurupira", inspiradas pela mitologia Kambeba. A música se refere a um ser mitológico que vive na floresta, protege a mata e os animais, avisando dos perigos e fenômenos da natureza, como temporais.
Entre os Guarani Mbya, a canção "Ñande Mbaraete'I Katu" é entoada para fortalecer o espírito e o corpo das crianças, e assim, trazer alegria. Já os Yudjá cantam "Taquara (taratararu)" para espantar os maus espíritos e as mulheres fazem os filhos dormirem ao som de "Apï Ayã Txuxitxuxi", que conta a história de um cachorrinho que comeu a comida quente e queimou a boca.
Esse breve passeio pelo universo musical indígena mostra uma riqueza cultural enraizada em nosso País. O fato, porém, é que o acesso ao conhecimento e os instrumentos para tornar esse conteúdo atrativo, ainda são escassos.
Normalmente, esse saber fica limitado ao meio acadêmico, apesar do território brasileiro ser povoado por cerca de 900 mil indígenas. Deste total, estima-se que 300 povos cantam, tocam e realizam seus rituais tendo a música como componente fundamental, e na maioria das vezes, com diferentes estéticas sonoras.
"Os indígenas consideram, genericamente falando, que milênios atrás, o céu e a terra eram juntos e se separaram. Por isso, é preciso cantar e dançar para que o céu não caia", conta a musicista e pesquisadora Magda Pucci.
Pucci, ao lado da pianista e educadora musical, Berenice de Almeida, refletiu sobre o quão pouco a sociedade em geral conhece dos povos indígenas brasileiros. Esse questionamento foi ponto de partida para as autoras lançarem o livro "Cantos da Floresta Iniciação ao Universo Musical Indígena" (editora Peirópolis, 2017).

A obra integra um projeto transmídia, que além do livro com informações sobre diversos aspectos da cultura indígena, traz um CD para ouvir as músicas e uma plataforma digital (site) com 50 atividades didáticas para professores e interessados.
"A ideia é propagar esse conhecimento nas salas de aula e por isso o material é direcionado aos educadores e professores. O livro é um suporte para que eles tenham por onde começar a entender quem são esses povos, onde vivem, que músicas fazem, que instrumentos tocam, enfim, um primeiro contato", diz Pucci.
A dupla se aprofundou nos estudos da diversidade musical de nove grupos indígenas: Kambeba, Paiter Surui, Ikolen Gavião, Kaingang, Krenak, Guarani, Xavante, Yudjá e povos do rio Negro.
"As atividades propostas não demandam um domínio específico de música. A ideia é que eles as adaptem conforme suas realidades, isto é, que possam partir para suas próprias pesquisas e se enveredar pelos caminhos que acharem melhor", comenta.
A educação e a música sempre formaram um movimento paralelo. Introduzir a música no processo de aprendizagem é uma forma de aguçar a sensibilidade e criatividade, construir um ambiente de integração e para Pucci, promover a multiculturalidade.
"O interessante do caminho das artes é que ele parte da sensibilização. Não é só pelo racional, mas pela sonoridade, estética, história e mitologia", completa. Pucci é diretora musical do grupo Mawaca e fez uma pesquisa intensa visitando pelo menos seis aldeias indígenas na Amazônia, em 2010.

Mas anos atrás, ela já havia publicado seu primeiro livro "Outras terras, outros sons" (editora Callis, 2003), motivada pela ideia de promover a diversidade cultural.
"Até mesmo em regiões onde os indígenas estão mais próximos, pude perceber uma grande dificuldade das pessoas em lidar com esse jeito de 'ser' indígena. Há um preconceito muito grande e isso tem a ver com a educação que recebemos, pois os indígenas sempre foram colocados como um entrave no desenvolvimento do País, como pessoas preguiçosas, que não merecem respeito", sustenta.
Em 2008, foi criada a Lei 11.645 que propõe a inserção da temática indígena no currículo escolar. Discussões mais recentes, como as competências gerais da Base Nacional Comum Curricular, apontam que diferentes linguagens (verbal, corporal, visual, sonora e digital) devem ser utilizadas para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.
"Há mais de uma década, a Unesco emitiu um documento sobre a importância do multiculturalismo na educação, mas em todos esses anos, não consigo ver isso de forma tão clara. Ainda é um movimento muito tímido", ressalta.

Identidade musical
Grande parte das canções indígenas são funcionais, isto é, estão relacionadas a determinadas situações. "A gente tende a achar que tudo se resume a reverenciar a natureza. Às vezes sim, mas há aquelas para produzir a cura, contar uma história, ninar os filhos. Essas especificidades estão sempre envolvidas no cotidiano, seja de brincadeiras ou em um importante ritual que envolve toda a comunidade e demora meses para ser preparado", conta a pesquisadora.
Quanto à característica instrumentais e de expressão, Pucci cita a presença dos maracás (chocalhos feitos de coco ou de cabaças) em quase todos os povos com os quais teve contato e a dança do pisar no chão com força, que além do papel percussivo, é uma forma de conexão com a terra.
Outra característica que ela aponta é a nasalidade. "Muitas línguas indígenas têm um forte aspecto nasal que modifica a musicalidade na expressão sonora indígena e que também influenciou nosso português, que é tão musical", explica.

Abertura para diferentes sonoridades
"A criança que tem a oportunidade de vivenciar o processo artístico e musical de outras culturas, ouve diferente e será outro adulto." É com propriedade e leitura que Lucy Maurício Schimiti fala sobre a educação musical em sala de aula.
Ela é docente da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e foi regente do coral infanto-juvenil da universidade durante anos. Atualmente, é assessora artística do projeto "Educação Musical Através do Canto Coral - Um Canto em Cada Canto", desenvolvido nas escolas municipais.

Tanto no coro quanto no projeto, Schimiti sempre teve a sensibilidade de passear por outras culturas, partindo até da própria experiência em viagens. "Isso me oportunizou trazer também muitos materiais e instrumentos. No coro da UEL, em especial, explorei muitas possibilidades vocais pensando justamente na oportunidade das crianças e jovens conhecerem outras culturas", diz.
Além dessa viagem musical, Schimiti conta que a busca pela pluralidade também tinha o objetivo de desenvolver o potencial da voz. "A partir do momento que é solicitado produzir sons diferentes, ganha-se amplitude. O ato de vivenciar outras sonoridades, especialmente pelas crianças, abre portas para que continuem cantando e pesquisando os efeitos da voz. Dessa forma, ela passa a se conhecer melhor e se permitir colocar e usar a voz de forma diferente", conclui.
Serviço:
Para as atividades didáticas do projeto "Cantos na Floresta", acesse: www.cantosdafloresta.com.br.


