Quando pequeno, Heitor adorava soltar pipa. Nada de estranho nisso, mas o problema é que além de gostar de pipas, ele odiava fazer tarefa. Certo dia, cansado da situação, o pai encontrou uma maneira radical de solucionar o problema: amarrou o garoto no pé da mesa para que ele fizesse os trabalhos escolares. Uma simples corda resolveu tudo. Pelo menos aparentemente.
Ao completar 16 anos de idade, dando uma de rebelde, Heitor fugiu de casa. Abrigou-se na casa de uma tia no Rio de Janeiro. Sabia tocar violoncelo e clarinete, que o próprio pai lhe ensinara, e desejava dedicar-se inteiramente à música.
Francisca, por outro lado, também aos 16 anos de idade, foi obrigada pelo pai a casar-se com um comandante da marinha. Ela adorava tocar piano e o marido odiava música. Para afastá-la das notas musicais, obrigou-a embarcar num navio que transportava soldados para a Guerra do Paraguai sob seu comando.
Após muita briga, Francisca resolveu abandonar o casamento, um procedimento intolerável na época. Como consequência, foi expulsa da família. Para sobreviver precisou vender de porta em porta partituras das músicas que compunha.
Embora a vida de Heitor, nascido em 1887, e Francisca, nascida em 1847 tenham alguns pontos em comum, a verdadeira semelhança entre os dois está na música. Heitor Villa-Lobos e Francisca Gonzaga (mais conhecida como Chiquinha Gonzaga), deram um novo caráter à música brasileira. Promoveram o encontro entre a música clássica (também chamada de erudita) e a cultura popular brasileira.
Se você deseja saber um pouco mais sobre a interessante trajetória desses dois compositores, ‘‘Heitor Villa-Lobos’’ de Loly Amaro de Souza e ‘‘Chiquinha Gonzaga’’ de Edinha Diniz é a dica exata. Os dois livros foram lançados pela Editora Moderna e inauguram a coleção ‘‘Mestres da Música no Brasil’’. Cheio de fotografias e imagens, a história de Heitor e Francisca é apresentada de maneira musical e ao mesmo tempo social.
A princípio você pode se perguntar: mas o que há de importante, ou de interessante, nas composições criadas tanto tempo atrás? A resposta pode ser simples. Vamos lá. Toda música possui uma idéia, um pensamento, por atrás dela. Um pensamento que pode ser dependente do momento histórico em que nasceu ou não. E o pensamento, a idéia, que pode ser encontrada atrás, ou mesmo dentro, da música de Heitor e Francisca trazem elementos fantásticos nesse sentido.
Antes de Chiquinha Gonzaga, por exemplo, não existia na língua portuguesa o feminino de ‘‘maestro’’. Isso porque nunca havia existido nenhum ‘‘maestro mulher’’ até então. Francisca foi a primeira e, a partir desse fato, foi necessário inventar o termo ‘‘maestrina’’. Antes de Villa-Lobos, outro exemplo, ninguém havia inserido na música clássica européia elementos de canções indígenas e caipiras, gêneros genuinamente brasileiras. Ele foi responsável por esse trabalho.
Você pode, com razão, se perguntar: ‘‘e daí?’’ Mas é só colocar os miolos para funcionar no seguinte sentido: ‘‘o que existe por trás de tudo isso?’’
Heitor Villa-Lobos – De Loly Amaro de Souza, Editora Moderna (telefone: 11 6090-1500 / internet: www.moderna.com.br), 32 páginas, R$ 13,00.
Chiquinha Gonzaga – De Edinha Diniz, Editora Moderna, 32 páginas, R$ 13,00.

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