Outros filmes em Veneza
Outros filmes em Veneza
Nada excepcional, mas bastante divertido para dar novo ânimo, entre trabalhos em competição pouco estimulantes em Veneza. O veteraníssimo Eric Rohmer, dos primórdios da nouvelle vague, está de volta aos seus filmes sob a rubrica de contos. É um especialista. Seu filme em concurso, Conte dAutomne, arrancou os primeiros aplausos sinceros de uma crítica que anda ranzinza. Para dar alívio a esta situação opressora de filmes arte-pela-arte, de cinema-poesia-testamento-retórica, de roteiros improdutivos e imagens encharcadas de presunção, nada como a mão leve e aparentemente distraída de um mestre que maneja a câmera com a agilidade de uma caneta. E que trata o espectador como velho amigo a quem deve simplesmente contar um conto. Depois dos adolescentes do verão, dos jovens do inverno e da primavera, chegou a vez dos maduros do outono.
Do alto de seus 78 anos, Rohmer se põe a retratar as coisas afetivas da idade com um veracidade de tom e uma vivacidade de inteligência e sentimentos há muito esquecidos pelo cinema. Comédia construída sobre nada, com diálogos e tempos irresistíveis. E as duas maduras, Béatrice Romand e Marie RiviSre, fazem empalidecer as estrelas conterrâneas Emmanuelle Béart e Sandrine Bonnaire por puro fascínio.
A pesada mão inglesa
Comenta-se aqui nos bastidores que o tempo máximo necessário a um crítico ou a um selecionador do Festival de Veneza para decidir se um filme agrada não chega a meia hora. No caso do inglês Hilary and Jackie, bastam cinco minutos para se comprovar a má educação do filme: duas meninas numa praia, uma mulher em contraluz que as observa, as garotas que se abraçam, a música que vai num crescendo e a câmera que começa a girar em torno das duas - movimento popularizado a partir do Lelouch de 30 anos atrás com Um Homem e Uma Mulher. Estes são os primeiros de uma série de excessos de roteiro que caracterizam um dos filmes mais indefensáveis da competicão. A direção é de Annand Tucker, que entre outros têm sérios problemas com continuidade e montagem. A aspiração era provavelmente repetir o sucesso imprevisto de Shine (filme com música e doença): aqui temos a história de Jackie Du Pré, talentosa e infeliz celista acometida de esclerose múltipla. O risco é o júri repetir o Oscar de melhor ator dado a Geoffrey Rush e aplicar a Colpa Volpi de melhor atriz à insuportável interpretação over de Emily Watson.
O superestimado Irã
Único filme asiático na corrida aos Leões este ano em Veneza, o iraniano O Silêncio, de Mohsen Makhmalbaf, dá bem a medida de um certo pedantismo que infesta festivais internacionais, em determinadas fases. Descoberto há alguns anos, o cinema do Irã logo ganhou status de genial, com Abbas Kiarostami e o próprio Makhmalbaf. E de tempos para cá, como num passe de mágica ou por osmose geográfica, em tempo integral, a genialidade passou a ser quase exclusiva do Irã, para uma parcela da crítica internacional. Pois O Silêncio surge em boa hora para desmitificar esta aura de exótica divindade. Não é um mau filme; é apenas um filme feito com sensibilidade e delicadeza, com lirismo e inteligência. Pode até ser significativo nos limites desta maratona veneziana, mas é simples e quase banal se colocado nesta camisa de força de cinema excepcional.
O Silêncio se passa numa pequena cidade do Tagikistão (onde Makhmalbaf preferiu filmar em busca de maior liberdade que não encontra no Irã). Khorshid, garoto cego de 10 anos, vive com a mãe e trabalha como afinador numa espécie de oficina onde são feitos instrumentos artesanais. O menino tem uma amiga que o acompanha para evitar que se perca. No dia-a-dia, Korshid vai aos poucos descobrindo as coisas do mundo através de experiências sonoras. A proposta poética de Makhmalbaf é que as vozes interiores sejam ouvidas, para melhor proveito da vida. Um filme sobre o átimo que escapa, disse ele durante a coletiva. Com certo cuidado, medindo as palavras, acrescentou que a filosofia religiosa (o fanatismo fundamentalista ?) cancelou a felicidade do presente. É preciso ouvir as vozes de dentro, as sugestões dos sons. Interesssante, mas nada cinematograficamente estimulante.C.E.L.J.)





