Outro idioma, a mesma delicadeza
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de dezembro de 1997
Antônio Mariano Júnior Londrina 
Maurício Nahas/DivulgaçãoPara explicar o que a levou a fazer um disco só com canções italianas, Zizi Possi ministrou uma verdadeira palestra em vez de entrevista a jornalistas presentes à coletiva, em São Paulo, no começo desta semana. A objetividade parece não ser uma das principais características da cantora elevada, há poucos anos, à condição de uma das vozes mais respeitadas e prestigiadas da MPB. Em suma, senhores, Per Amore (Polygram) é o resultado de fatores cumulativos que ocorreram à cantora que vão desde suas raízes familiares, canções coladas à memória, as bodas de ouro dos pais, o estímulo de uma jornalista e, finalmente, a sugestão do presidente de sua atual gravadora.
É isso. E isso resultou em Per Amore, um trabalho sensível e personalíssimo, o que não é nenhuma novidade na vida artística de Zizi Possi. Ou seja, mais uma vez ela nada contra a maré e acerta. Para quem é endereçado o disco, nem ela mesma sabe. Compra quem quiser, ouve quem desejar. Na dúvida, comprem porque Zizi Possi, pelo menos de uns anos para cá, não coloca voz em qualquer coisa.
Ela se diz não muito preocupada com a repercussão do disco. Dá impressão de dar os ombros às possíveis críticas negativas ou se o retorno comercial será assim ou assado. Hum!! Esquece-se Maria Izildinha que Per Amore chega às prateleiras com um bom fôlego comercial - a música, que dá nome ao disco, embala o romance de Regina Duarte (Helena) e Antonio Fagundes (Atílio) na mexicanizada Por Amor, a aquela lenga-lenga global em forma de novela.
Assim pensa Zizi a respeito da repercussão de sua 14ª cria em 19 anos de carreira: Se eu fosse marqueteira estaria trabalhando com marketing, mas como sou cantora e musicista faço música e o resto que se dane. Deixa Polygram vender. A música tem o poder de se comunicar com almas independente da língua. Então tá!
Para gravar o disco, a cantora fez pelo menos duas exigências ao presidente da gravadora, Marcelo Castello Branco. A primeira, que o repertório teria só o dedo dela. Segunda, que fosse um trabalho com orquestra. Acordo fechado, disco gravado. Ao todo, 12 faixas, num total de 15 canções. Mãos inglesas, brasileiras e italianas afagaram o disco, cuja direção musical é assinada por Zizi Possi.
A orquestra de cordas presente em quase todo o trabalho foi gravada em Londres. A parte brasileira conta com músicos excepcionais como o violonista Marco Pereira (violão em Senza Fine e os pianiostas Jether Garotti Júnior em João Carlos Assis Brasil. Já o núcleo italiano de instrumentistas é comandado por Adriano Pennino.
Per Amore é composto de antigas canções italianas (quase todas escritas em dialeto napolitano) mas se abre a compositores contemporâneos. Das antigas, alguma pesquisa. Independente de ter parentesco italiano, como musicista posso dizer que as canções napolitanas são de uma emoção impressionante - analisa. A seleção de repertório, como faz questão de frisar a proprietária, partiu mesmo da memória.
Vêm de recordações familiares, por exemplo, Scapricciatiello mio e Vurria (que seu avô materno cantava quando era pequena), que Zizi já cantava em seu show Mais Simples, do disco anterior, um dos números que mais despertavam o ânimo do público e que fez com que uma jornalista carioca escrevesse a respeito.
Elefante brancoPer Amore pode perfeitamente ser encaixado como um projeto especial. Mas Zizi prefere mais uma vez elucubrar a respeito para chegar à conclusão de que, se houve tanto afinco como nos seus demais trabalhos, o disco é de carreira. Do ponto de vista musical eu considero um disco de carreira porque pesquisei tanto quanto pesquisaria para fazer um disco em etrusco arcaico ou em português. Ou seja, trabalhei com sensibilidade, da mesma maneira que nos discos anteriores - avisa.
Ai, ai... Resumindo, mais uma vez: Per Amore nada mais é que um disco belíssimo e ponto. Fica mais fácil assim, não é mesmo? Ah, sim, Zizi Possi não fala italiano. Fez algumas aulas do idioma para, como explica, compreender o que estava cantando. E também para aprender a sonoridade do que estava cantando para errar o menos possível - completa.
O disco deve se transformar em espetáculo cuja direção ficaria a cargo do diretor teatral José Possi Neto. Irmão de Zizi, em outras palavras. Porém, a cantora sabe de antemão que será necessária uma gorda injeção de patrocínio porque a proposta inicial é levar ao público um trabalho com orquestra.
Trata-se de um projeto ambicioso e grandioso. E para tal a palavra-chave usada por Zizi é grana. É preciso esperar o disco repercutir para bater à porta dos cada vez mais sumidos patrocinadores. Aí começa minha batalha. Preciso ver também que tipo de incentivos sobrou para que a iniciativa privada possa se habilitar - diz. É um elefante branco, eu sei. Mas se pensar em dificuldade eu não farei nada porque facilidade é uma coisa que não temos em nosso País - complementa.
ChiliquesPois bem, nem mesmo o prestígio que Zizi conseguiu ainda não é suficiente para que os bolsos da esperança se abram facilmente. E olha que ela já arrancou quilométricos elogios até no exterior. Até de diva foi chamada. E, incorporada nessa condição, já se sente à vontade para dar declarações com certo ar blasé. Graças a Deus meu sentido estético vem dando certo. Caso contrário, você não estaria aqui hoje. Sobrevivo melhor agora do que na época em que gravava Perigo, uma música que eu acho bárbara de uma época em que não via a cor do dinheiro - informa.
Junto com essa aura, sai de cena também a falsa modéstia. Sinceramente me acho uma ótima cantora. Isso não quer dizer que vou acertar o tempo inteiro, mas sempre estou inteira no que faço - diz. Certo! Certíssima. Errado, por exemplo, está no fato de que ter-se tornado uma cantora paparicada não lhe dá o direito de ter alguns chiliques mesmo que recheado com alguma candura.
Na entrevista coletiva, concedida na sede da Polygram em São Paulo, Zizi chegou atrasada. Para conversar com jornalistas, precisou recorrer ao maquiador. Tudo certo, vaidade nunca é demais a um artista. Porém, não se deixar fotografar por uma profissional de um jornal paulistano porque estaria com uma suposta conjuntivite, já é demais. Ora, colocasse óculos escuros e tudo certo.
A humildade de outrora parecia ter sido riscada nesse dia. Até algumas respostas vieram em formas ríspidas. O que vale é a arte de Zizi? É. Então, Per Amore deve ser entendido como um trabalho de uma artista delicada. De uma artista delicada, é bom frisar!!
O jornalista Antônio Mariano Júnior viajou a São Paulo a convite da gravadora Polygram


