Alto lá para os dois temidos piratas modernos do bom Português, o capitão estrangeirismo e o marujo internetiquês, que na opinião de muitos defensores da norma culta, aterrorizam os sete mares infinitos da língua de Camões e Machado de Assis.
Ainda que os mais pessimistas temam que a língua culta esteja andando sobre a prancha ameaçada pelos neologismos, uma bússola indica o futuro do Português.
Quem aponta esse norte é o linguísta Ataliba Teixeira de Castilho, professor de Filologia e Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP), coordenador do projeto ''A História do Português Brasileiro - São Paulo''.
''O Português está longe de morrer. O futuro da língua é o Brasil e não Portugal. Os portugueses somam apenas 9 milhões de habitantes e os brasileiros são 160 milhões de pessoas, que trabalham para a difusão da língua'', ressalta Castilho, que esteve em Londrina participando de um evento. Durante três anos, o professor foi consultor do Museu da Língua Portuguesa (leia texto na página 3), em São Paulo.
A afirmação dele seria capaz de fazer Camões revirar-se no túmulo em defesa do Português de Portugal. Se pudéssemos tê-lo frente a frente com Machado de Assis, poderíamos reproduzir o diálogo criado pelo autor brasileiro no livro ''Memórias Póstumas de Brás Cubas'', onde os personagens emprestariam as páginas para uma hipotética conversa entre os dois mestres da literatura em língua portuguesa, sendo que um estupefato lusitano irromperia indignado mediante a afirmação de que o futuro da língua é o Brasil.
''Machado de Assis.....?''
''Camões......''
''Machado de Assis.....................''
''Camões......''
O texto que no original traz um diálogo entre Brás Cubas e Virgilia revela a modernidade da língua, que prescinde até das palavras para mostrar com sinais gráficos uma conversa feita de olhares e gestos.
''No Brasil sempre se achou que os problemas da língua, como a dificuldade que as pessoas têm em fazer uma concordância verbal correta, eram resquícios e influências de uma deficiência no aprendizado dos índios e negros. Isso não é verdade'', acrescenta Castilho, entrando na mata e nos sertões da história do Brasil para agarrar à unha, num trabalho de vários anos de pesquisa, esse bicho feroz e de boca grande que muitos acham estar prestes a engolir os incautos que tropeçam nas suas regras, o Português.
''Estamos buscando os primeiros vestígios da língua portuguesa falada no Brasil em documentos antigos, como certidões de casamento, nascimento e de óbito. Será preciso fazer análises de mudanças fonéticas, léxicas e sintáticas, explica o professor, no roteiro dessa viagem através do Português do Brasil.
Ele afirma que no século 18, os irmãos de além mar correram tanto com a evolução do Português, que deixaram os brasileiros no século 15.
Sob os olhos espantados dos que acreditam que as gírias, os neologismos e agora o internetiquês estão transformando a língua portuguesa no Brasil, o professor diz que no país ainda falamos o Português antigo.
Na garupa dos bandeirantes e dos tropeiros, essa língua fez o movimento inverso ao do relógio no mapa do Brasil, marcando presença no Rio de Janeiro, sul de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Paraná, entrando por Adrianópolis (133 ao norte de Curitiba), seguindo com os tropeiros até Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Nos arquivos de São Paulo e São Vicente vivem mostras desse Português Caipira dos colonizadores, que não faziam questão da norma culta. ''A minha esposa, a Célia Castilho, também faz parte do projeto e encontrou em testamentos dados como esse: 'Filha meu vai herdar os meus bens'. A minha avó por exemplo era do Vale da Ribeira e falava: 'O dia está fria'. Ela guardava essa língua dos primeiros portugueses. O que a minha esposa está encontrando são as bases do Português Caipira, arcaico, do século 15'', afirma o professor.
A norma culta pode olhar com desdém para o forma popular do Português que, às vezes, até escorrega em erros, mas na opinião do pesquisador, ajuda a empurrar a língua para frente.
''Existem grandes línguas e culturas que não se atualizam, como o Inglês, que mantém pronúncias antigas, obrigando o aprendiz a decorar as palavras. Na minha avaliação, o ensino de Português tem coisas mais importantes para se preocupar do que uma reforma. Isso pode esperar, o que importa é a gente levar para a escola o que a gente vê no Museu da Língua Portuguesa. Os visitantes ficam encantados ao reconhecerem-se brasileiros, dizendo 'aqui está a minha identidade'', compara o professor.
Leia mais sobre o assunto na página 3.

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