OUTRAS PALAVRAS - Pesquisadora defende o sotaque 'pé-vermelho'
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sábado, 12 de março de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Algumas pessoas tentam disfarçar, mas, quando menos se espera, o ''r'' acentuado aparece e denuncia que somos todos paranaenses, exemplo disso é a nossa representante no Big Brother Brasil, a modelo Grazielli Massafera, 22 anos, de Jacarezinho, que não esconde o sotaque e fala com convicção ''porrrta'' ou ''verrrrde'', destoando dos outros concorrentes. ''Isso é a prova da riqueza da nossa língua'', defende a linguista Vanderci de Andrade Aguilera, 61 anos, que pesquisa a forma de se falar no Paraná. ''Faço questão de acentuar o 'r' paranaense nos congressos dos quais participo. Não tenho vergonha dele, aliás, me orgulho. Isso é parte da nossa identidade e acho importante valorizá-lo. Todas as formas de se falar são legítimas'', afirmou a professora, que há 23 anos leciona no curso de Letras da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Intrigada com as peculiaridades do linguajar paranaense, não apenas no aspecto fonético, do sotaque, mas também das palavras utilizadas para expressar nomes de objetos, verbos e substantivos, Vanderci empreendeu uma verdadeira empreitada por 65 municípios paranaenses como parte de sua pesquisa de doutorado sobre o assunto, concluída em 1990. Seu objetivo era verificar por todo Estado as palavras que predominavam na área rural, que, segundo ela, ainda tem mais preservada a forma original de se falar, sem tantas influências externas. Em cada localidade, um homem e uma mulher, de 30 a 55 anos, respondiam oralmente a um questionário com 325 perguntas conduzido pela professora ou uma de suas estagiárias.
A pesquisa apontou, por exemplo, que no Paraná o nome que se usa ''para a pele que cobre o olho'' não é pálpebra, como se padronizou falar. Entre as várias maneiras de expressar esse significado, a mais predominante em todo Estado é ''capela do olho'', em que pode-se até inferir um sentido poético. ''A palavra capela significa capa pequena, no português de Portugal, e também podemos dizer que tem um sentido figurado religioso, daquilo que protege algo sagrado'', explicou Vanderci. Outro exemplo de analogia metafórica é o nome que é utilizado na área rural paranaense para beija-flor. ''A pesquisa mostrou que o que predomina é cuitelinho, palavra que deriva de cuitelo, que significa faca no português de Portugal, e, consequentemente, faquinha para fazer referência ao bico do beija-flor.''
O extenso trabalho de pesquisa em que para cada palavra pesquisada foi elaborado um mapa mostrando as localidades em que ela predomina resultou na edição de 500 exemplares do ''Atlas Linguístico do Paraná'', pela Imprensa Oficial do Estado, em 1994. O material foi distribuído em bibliotecas, universidades e instituições de pesquisa. Considerado um material inédito sobre o assunto no Paraná, depois da sua publicação, a professora passou a ser convidada para dar palestras em congressos por diversos estados brasileiros que também queriam elaborar o seu mapa linguístico. A idéia foi tão bem recebida, que desde 1996 está sendo desenvolvido a pesquisa sobre o mapa linguístico do Brasil Projeto Atlas Linguístico do Brasil (Projeto AliB), coordenado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e mais nove universidades, entre elas a UEL. A previsão é que até o final deste ano seja concluída a parte das capitais. Ao todo serão 250 cidades brasileiras pesquisadas.
''O mapa linguístico é um registro que ajuda a recompor a história, destacando a herança dos povos que participaram da nossa colonização. Sem o atlas, muita coisa pode se perder no tempo'', destacou.


